Guerra em Gaza amplia clima de ódio e deixa democracia israelense em escombros

Em Israel, árabes-palestinos e críticos do governo Netanyahu têm sido alvo frequente de ataques

A ofensiva israelense à Faixa de Gaza deixou o enclave palestino em escombros e também causou danos inestimáveis à liberdade de expressão e à coexistência entre judeus e árabes dentro de Israel.

Em meio às tentativas de prolongar o cessar-fogo, intermediadas pelo Egito, já se pode fazer um balanço da destruição causada durante a chamada “Operação Margem Protetora”.

Em Gaza os estragos são visíveis: bairros inteiros transformaram-se em montanhas de escombros, cerca de 1.900 pessoas morreram e mais de 100 mil perderam suas casas.

Leia mais: Direita israelense e Hamas são cúmplices na destruição da paz

Em Israel a destruição não é tão óbvia, mas sim permeia a sociedade e deixa o país, que se considera “a única democracia do Oriente Médio”, com sérios questionamentos sobre o futuro.

“Já não se pode mais levar crianças às manifestações pacifistas em Tel Aviv”, afirmou um manifestante, depois que ativistas de organizações pela paz foram espancados por gangues de extrema-direita no centro da maior cidade de Israel.

Clima de medo

A observação expressa o clima de medo que se criou quando a maioria dos cidadãos se alinhou com a posição do governo e uma minoria significativa, daqueles que são contra, vem sofrendo uma repressão sem precedentes.

O veterano jornalista Gideon Levy, do Haaretz, que cobre a questão palestina há anos, recebeu tantas ameaças de morte que o jornal acabou contratando guarda-costas que o acompanham 24 horas por dia. Levy, que denunciou o massacre aos palestinos de Gaza, é taxado como “traidor” e “quinta coluna”.

Agência Efe

Ofensiva israelense destrói Faixa de Gaza, mas também eleva problemas internos do país


A cantora Rona Keinan, que havia lamentado as vítimas dos dois lados do conflito, também começou a receber ameaças de morte. A violência das ameaças foi tanta que seus produtores resolveram cancelar um show que estava agendado na cidade de Haifa.

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Professor de Direito da Universidade de Bar Ilan, Hanoch Sheinman enviou uma mensagem aos estudantes mencionando as vítimas dos dois lados do conflito. Vários alunos foram se queixar ao reitor, acusando o professor de “ferir seus sentimentos”. O reitor exigiu que o professor se desculpasse perante os alunos e ele se negou a fazê-lo. Em seguida, vários dos alunos abandonaram seu curso em sinal de protesto.

Esses são apenas alguns exemplos do clima totalitário que se instalou em Israel nessas últimas semanas, no qual qualquer pessoa, em qualquer segmento da sociedade, que pense diferentemente do consenso belicoso, pode estar sujeita à violência ou a sanções de diversos tipos.

Incitamento

A dificuldade de se realizar um debate aberto e democrático entre os judeus israelenses se soma à hostilidade crescente entre cidadãos judeus e árabes-palestinos, que compõem 20% da população de Israel.

Em resposta aos protestos contra a ofensiva à Faixa de Gaza nas aldeias árabes, o chanceler Avigdor Lieberman conclamou a população a boicotar os negócios dos cidadãos árabes.

“Convoco a todos que deixem de comprar nas lojas daqueles, no setor árabe, que participam dos protestos contra a operação Penhasco Sólido e se identificam com os habitantes de Gaza”, escreveu Liberman em sua página no Facebook.

Para o deputado árabe Bassel Ghattas, do partido Balad, “a declaração de Liberman é um exemplo de incitamento racista que visa gerar um comportamento de rebanho”.

Ódio

Professores de Educação Cívica em Israel relatam que já não sabem mais como se confrontar com o grau de ódio dos alunos, tanto contra árabes como contra “esquerdistas”.

Racismo explícito e frases como “morte aos árabes” deixaram de ser tabu e passaram a ser abertamente utilizados no discurso publico, inclusive nas salas de aula.

Agência Efe

Enquanto em Israel críticos da ofensiva têm dificuldades para se manifestar, protestos se multiplicam pelo mundo, como na Holanda


O professor Yeshaiahu Tadmor, presidente do Conselho de Ensino Humanista junto ao Ministério da Educação, afirmou que durante a operação militar em Gaza “se destaca um tema assustador: o ódio”.

“O ódio encontra-se no polo da maldade humana, da crueldade, da brutalização e da violência. As expressões de ódio que se disseminaram na sociedade são extremamente perigosas. O ódio que envenena o discurso de pessoas e instituições em meio ao público judaico e o ódio que borbulha como lava efervescente contra árabes cidadãos de Israel. Contra o ódio não podemos adotar atitudes tolerantes. Temos a obrigação de combatê-lo, sem medo, sem hesitação, sem concessões”, declarou Tadmor.

Violência

O clima de ódio e de intolerância que se instalou na sociedade israelense já levou a inúmeros casos de violência física contra cidadãos árabes.

O caso mais chocante foi o assassinato do jovem palestino Mohamed Abu Khdeir, de 16 anos, que foi queimado vivo por adolescentes israelenses, no início de julho.

O crime ocorreu logo após o assassinato de 3 jovens israelenses, por palestinos, na Cisjordânia.

Durante o interrogatório, os assassinos de Abu Khdeir admitiram que se tratava de um ato de vingança pela morte dos israelenses.

Em incidente mais recente, no dia 25 de julho, dois jovens palestinos do bairro de Beit Hanina, foram gravemente espancados por um grupo de adolescentes israelenses em Jerusalém. Segundo a polícia, os jovens foram atacados apenas por serem árabes.

(*) Guila Flint cobre o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira.

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