Debate sobre livro de Padura analisa desafios do socialismo no século XXI

Para intelectuais no lançamento de "O homem que amava cachorros", obra fala das contradições no século passado

Daniella Cambaúva

O homem que amava cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes, é uma obra de múltiplas facetas. Com uma narrativa não linear, conta três histórias: a do escritor cubano Iván Cárdenas Maturell, a do líder bolchevique Leon Trotksy e a de seu assassino, o catalão Ramón Mercader. O romance, com boa dose de fatos históricos reais, foi lançado no Brasil nesta segunda-feira (09/12) pela Boitempo Editorial em um debate entre o historiador e jornalista Gilberto Maringoni, os historiadores Osvaldo Coggiola e Valério Arcary e o teólogo e escritor Frei Betto. O mediador foi o jornalista Breno Altman, diretor de redação de Opera Mundi.

Divulgação/Boitempo editorial

Livro de Leonardo Padura fala de como Leon Trotksy foi excluído da vida política soviética até se tornar um “inimigo da revolução”

Leia resenha sobre o livro:
Romance sobre morte de Trostky, clássico do cubano Leonardo Padura é lançado no Brasil

Embora aborde temas diversos, tais como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e o Período Especial em Cuba (1990-1995), parte da obra de Paduro se centra em dois dos temas mais polêmicos do século XX: a relação entre stalinistas e trotskistas. Trata-se de um assunto em que o consenso é improvável, mesmo após quase um século depois da Revolução Russa (1917). E ainda mais improvável entre os debatedores, pelo fato de cada um deles ter maior ou menos afinidade com essas duas correntes.

O ponto comum é que O homem que amava cachorros é uma obra capaz de expor as contradições e equívocos do socialismo no século XX. É, em suma, um livro essencial para aqueles que pretendem compreender os caminhos dos movimentos de esquerda na contemporaneidade. “Este é um livro obrigatório para homens e mulheres progressistas. E até mesmo para os não tão progressistas assim”, disse Altman em sua fala de abertura do debate.

Para o jornalista, o texto é um painel de uma época e conta a história de homens e das circunstâncias em que estavam: os primeiros anos da Revolução Russa, os desafios de desenvolvimento da União Soviética e o combate ao nazismo na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O grande mérito de Padura, um “crítico pontual e agora apoiador” do governo cubano, é “desmitificar a ideia poética do processo revolucionário, que é repleto de contradições”.

Para Maringoni, autor do prefácio que acompanha a edição lançada no Brasil, o livro, publicado pela primeira vez em 2009, fala do presente, apesar de retratar fatos acontecidos no século XX. “É um livro que coloca os dilemas da esquerda na atualidade. [Fala] sobre as urgências da revolução, e mostra como foi o processo da Revolução Russa. Aconteceram 21 invasões, tinha a urgência no combate à fome, a necessidade da industrialização, a Crise de 29, a luta contra o nazismo”, lembrou.

A obra aborda sobretudo as mortes que aconteceram ao longo desse processo, incluindo a de Trotsky – ápice da narrativa do escritor cubano – e, antes, a maneira como foi excluído da vida política soviética até se tornar um “inimigo da revolução”. Para Maringoni, houve excessos, "mas não se pode desprezar a Revolução Russa pelos excessos cometidos. Este não é um livro apenas para quem quer saber dos meandros da esquerda, mas também para quem gosta de boas histórias. E é muito importante voltar a colocar a revolução nas conversas. Este livro acende o debate sobre o futuro do socialismo”, continuou.

Itziar Guzmán

Padura, na opinião dos debatedores, conseguiu expor as contradições e equívocos do socialismo no século XX em seu livro

Já Arcary elogiou a capacidade do autor de construir um personagem – Mercader – com uma inabalável disciplina em relação ao Partido Comunista Soviético. E de tal forma que sequer questiona sua tarefa de matar Trotsky. Neste aspecto, Padura emprega diversos elementos da ficção em sua narrativa, já que são escassas as informações sobre a biografia do agente. O historiador julga impossível ser socialista no século XXI sem saber o que foi o stalinismo “e a monstruosidade (...) está presente no livro – um ato de coragem, porque poucas vezes se escreveu sobre isso”.

"Viagem pelo século XX"

“É um livro em que a gente faz uma grande viagem pelo século XX”, definiu Frei Betto. “O que me impressionou é a fé fundamentalista dos comunistas. A voz da autoridade é a voz da verdade”, pontuou. E a Padura, segundo ele, nunca foi imposto um pensamento fundamentalista. Por essa razão é que o livro consegue, ao longo de suas 592 páginas, abordar as contradições e problemas do socialismo, representar a morte de Trotsky e, ainda, colocar os momentos de angústia pelos quais os cubanos passaram após o desmantelamento da União Soviética.

Coggiola, trotskista desde os 19 anos, filho de mãe cubana, se mostrou impressionado com a capacidade de Padura de contar uma história que milhares de pessoas no mundo conhecem – do assassinato de Trotksy – de uma forma inovadora. “É um livro novo sobre um tema que todo mundo já sabia. Nisso, ele é um grande artista”, disse, ao questionar por que a morte de Trotsky fascina tanto, se outras pessoas também morreram em contexto semelhante. “Este livro do Padura tem que ser lido por todos e todas porque é uma grande contribuição. Coloca o dedo em feridas que ainda estão abertas”.

No final, lançou que, em sua opinião, a “falta de ideias” de Stalin foi a grande marca negativa do socialismo soviético. Encerrando o debate, Altman contestou a afirmação. “Homem sem ideias? Ele pode ter tido as piores ideias. Não creio que deva ser este o terreno da discussão. Só existe algo tão grave quanto o fundamentalismo endeusatório [aos líderes do Partido Comunista Soviético]: o fundamentalismo crítico àquela experiência [stalinismo]”.

Serviço
“O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura
Editora Boitempo Editorial
Preço: 69 reais

Comentários