Hoje na História: 1680 – Acusada de feitiçaria, "La Voisin" é queimada viva na França

Antes de morrer, Catherine Deshayes decidiu denunciar inúmeros de seus clientes; dentre eles, a amante do rei Luís XIV

Max Altman

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Em 22 de fevereiro de 1680, uma mulher é queimada viva na praça de Grève, diante do Hôtel de Ville de Paris, sob acusação de feitiçaria e envenenamento. Nascida Catherine Deshayes 40 anos antes, era conhecida no bairro de Saint-Denis, lugar de todos os tráficos, segundo o apelido de seu marido: "La Voisin".

Embora pareça comum para a época, o acontecimento causou grande repercussão no contexto social. Isto, pois La Voisin — que havia enriquecido largamente praticando abortos e comercializando venenos — decidiu, antes de morrer, denunciar vários de seus clientes. Muitos deles, homens e mulheres, pertenciam à alta aristocracia francesa. A Madame de Montespan, amante do rei Luis XIV, foi uma das comprometidas, por exemplo. As denúncias tiveram repercussões supreendentes.

Na origem do "Caso dos Venenos", ocorreu em 17 de julho de 1676 a execução de uma outra envenenadora — esta da alta sociedade — a marquesa de Brinvilliers, 46 anos. O affaire desemboca numa multiplicidade de rumores em Paris sobre envenenamentos que implicavam pessoas da alta sociedade.

[Pintura do século XVII, retrata Catherine Deshayes, "La Voisin", ladeada por um demônio alado]

Gabriel Nicolas de La Reynie, o chefe de polícia da cidade de Paris, foi encarregado pelo ministro do Interior, Louvois, de jogar luz sobre todos esses casos. Cercado da maior das discreções, infiltra seus detetives nos meios suspeitos da rua Saint-Denis, onde se praticava o comércio de venenos.

As investigações prosseguiram sob os olhares atentos do mais alto escalão da corte — porquanto se dizia que o próprio Luis XIV estaria ameaçado.

Uma cartomante, Marie Bosse, depois uma certa Vigouroux, por fim a famosa La Voisin, caem na rede da polícia e se vêm indiciadas na prática de envenenamento.

Em abril de 1679, a prática cresce em amplitude, os culpados são cada dia mais numerosos, obrigando o rei a decidir pela implantação de uma corte extraordinária de Justiça que receberia o epíteto evocador de "Câmara Ardente" — assim nomeada porque ocupava um espaço ornado com panos pretos e iluminado por tochas.

Uma verdadeira obsessão invade a população parisiense que passa a ver em qualquer morte prematura a ação dos envenenadores, que se encontravam no âmago das práticas mais sórdidas da época. Descobre-se que certos envenenadores, como La Voisin, se tornaram cúmplices das "missas negras", no curso das quais falsos — e até verdadeiros — padres colocavam um cálice sobre o ventre de uma mulher nua e, sobre ela sacrificavam ao diabo um recém-nascido, fazendo jorrar o sangue dentro do cálice.

Era dentro dessa atmosfera diabólica que atuava a Câmara Ardente. Funcionou durante três anos, até julho de 1682, acumulando até então 442 julgamentos com 36 condenações à morte, 23 banimentos e 5 condenações às galés.

La Voisin foi executada após ter inculpado muita gente. Recusou-se, porém, a entregar abertamente o nome da Madame de Montespan — a amante do rei viria, entretanto a ser mencionada na sequência dos interrogatórios. Acusou uma de suas filhas de ter participado de uma "missa negra".

O rei ficou horrorizado ao tomar conhecimento de que sua amante, então em descrédito, lhe tinha feito absorver os "filtros do amor" e tinha também supostamente maquinado a demissão da Mademoiselle de La Vallière, bem como a morte de Madame de Fontanges e a esterilização da própria rainha. Pressionado para pôr fim ao escândalo, o rei suspende os interrogatórios e atira às chamas de sua lareira os papeis que comprometiam sua antiga amante. Os principais acusados, ainda não condenados, foram levados atrás das grades em diferentes fortalezas, à razão de seis por calabouço, até que a morte os libertasse.

 

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