Maior consumidor mundial de agrotóxicos, Costa Rica tem alta incidência de leucemia infantil

Graves efeitos causados pelo contato direto caem apenas sobre os trabalhadores, mas também sobre seus descendentes

Giorgio Trucchi

Dados dos WRI (World Resources Institute), organização dedicada a investigar questões ambientais, apresentam a Costa Rica como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com 51,2 quilos por hectare. Em 2009, o país importou mais de 400 TM (toneladas métricas) em fórmulas com bromometano, um agroquímico e componente apontado como destruidor da camada de ozônio (XVI Relatório sobre o Estado da Nação em Desenvolvimento Humano Sustentável 2010).

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Mobilização contra a Monsanto, multinacional de agricultura e biotecnologia que quer plantar milho transgênico na Costa Rica

O IRET (Instituto Regional de Estudos sobre Substâncias Tóxicas) da Universidade Nacional da Costa Rica, revelou, no começo de 2011, que a quantidade de agrotóxicos importados entre 1977 e 2006 aumentou 340%, alcançando um total de 184 817 TM em quase 30 anos.

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Ainda mais preocupante é a tendência do aumento do uso destes produtos. Em 1977, com cerca de 345 mil hectares dedicados à agricultura, o país importou 2.800 toneladas de pesticidas. Em 2006, com 451 mil hectares plantados (30,7% mais de território), a importação destes produtos chegou praticamente às 12 mil toneladas (328% mais de agroquímicos). Em 2010, o Serviço Fitossanitário do MAG (Ministério de Agricultura e Pecuária, por sua sigla em espanhol), reportou o uso de 14 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos, isto é, três quilos consumidos para cada costarriquenho.

Segundo o engenheiro agrônomo Fernando Ramírez, um dos produtos tóxicos mais usados é o Mancozeb. Em declarações à imprensa nacional, Ramírez explicou que este produto gera efeitos tóxicos em longo prazo e doenças crônicas. Além disso, são comumente utilizados alguns fosforados e fungicidas, como o Paraquat e o Endosulfan, produtos que já foram suspensos em muitos países por seus efeitos sobre a saúde e o meio-ambiente.

Fontes acadêmicas estimam que 4,5% dos trabalhadores agrícolas costarriquenhos sofrem uma intoxicação por ano. Mas os graves efeitos causados pelo contato direto com agrotóxicos não parecem estar caindo apenas sobre os trabalhadores e trabalhadoras agrícolas, mas também sobre seus descendentes.

Com o objetivo de “contribuir para o conhecimento científico sobre os riscos cancerígenos dos agrotóxicos e outras substâncias tóxicas”, e servir como base para a tomada de decisões regulatórias nacional e internacionalmente, o IRET e o Instituto Karolinska da Suécia realizaram, em 2008, o estudo “Exposição ocupacional e ambiental de pais e mãe a agrotóxicos, outros contaminantes e leucemia.”

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A doutora Patrícia Monge Guevara, então coordenadora do Mestrado em Saúde Ocupacional e pesquisadora do IRET, disse que “dois fatores nos motivaram a promover esse estudo. O primeiro é que a Costa Rica tem uma das mais altas incidências mundiais de leucemia infantil, e o segundo é que entres as causas mencionadas na literatura internacional figura a exposição ou contato com substâncias químicas”. Dentro dessas substâncias estão os agrotóxicos.

O estudo demonstrou que existe uma relação clara e direta entre esses dois fatores – a exposição dos pais aos agrotóxicos e a leucemia — e que o risco de desenvolver a doença [entre os que se expõe a agrotóxicos] é até três vezes maior que o normal. Mais ainda, essa relação acaba sendo ainda mais alta quando o contato com essas substâncias é feito pela mãe durante a gravidez e durante o primeiro ano de vida da criança.

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“Os resultados são claros. Podemos concluir que o contato dos pais e mães com agrotóxicos antes do nascimento e no primeiro ano de vida da criança contribui para a aparição da leucemia infantil. Mas vamos além, porque ficou clara uma associação entre grupos definidos destas substâncias, como, por exemplo, os organofosforados, entre eles o Diclorvós, Fenamifos, Malathion, Metamidofós, Foxim e o Terbufos, alguns herbicidas como o Paraquat y Picloram e fungicidas como o  Benomyl e o Mancozeb”, detalhou a doutora Monge.

Apesar de o estudo não incluir uma análise por região geográfica, estima-se que as áreas mais afetadas sejam as rurais, onde as trabalhadoras e os trabalhadores estão expostos ao contato com agrotóxicos, e em particular as monoculturas.

Milho transgênico

A quase inexistente produção de milho no país despertou o apetite das grandes companhias que controlam o mercado de sementes no mundo, e que estão inundando os países com seus produtos geneticamente modificados (OGM).

Em novembro de 2012, a empresa D&PL Semillas Ltda, subsidiária da companhia Delta & Pine Land, controlada pela Monsanto, apresentou para a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) uma solicitação para plantar na região de Guanacaste vários hectares de milho transgênico MON-88017, MON-603 e MON-89034.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Estudo recente mostrou que ratos alimentados com milho transgênico produzido pela Monsanto morreram prematuramente

Em estudo recente conduzido pelo biólogo francês Gilles Eric Seralini mostrou que ratos alimentados com milho transgênico MON-603, patenteado pela Monsanto, morreram prematuramente e tiveram uma frequência de tumores de 60-70%, frente a 20-30% do grupo ao qual esse alimento não foi fornecido.

Depois da decisão da maioria dos integrantes da CTNBio de aprovar a solicitação da D&PL Semillas Ltda, várias organizações ambientalistas e setores da sociedades costarriquenho interpuseram um recurso perante à Sala Constitucional, alegando a inconstitucionalidade de três artigos (117, 118 e 132) do Regulamento da Lei de Proteção Fitossanitária.

Assim, conseguiu-se a suspensão de todos os trâmites que estavam pendentes, entre eles a permissão outorgada à Monsanto, até que os magistrados escutem as partes, adquiram mais informações e emitam uma sentença sobre o fundo do recurso.

Esta nova luta de Davi contra Golias incluiu um componente de conscientização nos territórios, cujos resultados foram inesperados. Durante a histórica mobilização “Caminhada em Defesa do Milho”, que em novembro de 2012 atravessou toda a Costa Rica, múltiplas atividades com as populações locais e com as autoridades municipais foram organizadas, mais de sete mil assinaturas foram coletadas e mais de 18 mil panfletos informativos foram distribuídos.

Além disso, um crescente número de setores acadêmicos e institucionais se expressou publicamente contra a plantação de transgênicos. “Foi reativado o músculo social, capitalizando o descontentamento generalizado que existe no país. Nestes meses nos dedicamos a trabalhar nos municípios e conseguimos que 62 dos 81 municípios que existem na Costa Rica se declarassem livres de transgênicos, isto é, 76% dos governos locais do país”, disse a Opera Mundi Fabián Pacheco, membro da Federação Ambientalista e mestre em Agrobiologia Ambiental.

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Embora as autoridades governamentais não reconheçam esse resultado, por considerar que o poder sobre o modelo de desenvolvimento agrícola é do governo central e não dos locais, Pacheco acredita que esse processo permitiu “tornar cada vez mais visível a questão dos transgênicos e capacitar as pessoas para essa discussão.”

Frente a este avanço a aos resultados obtidos, Pacheco, que é também representante do setor ambiental frente à CTNBio, apresentou em 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, projeto de lei de moratória contra a plantação de transgênicos na Costa Rica.

“O que se conseguiu nos territórios nos dá legitimidade e respaldo suficiente, em palavras e votos, para apresentar, frente à Assembleia Legislativa, um projeto desta magnitude. É um passo adiante nessa grande luta para declarar a Costa Rica um país livre de transgênicos", garantiu. 

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