Guerra na Síria entre potências é improvável, dizem especialistas

Para Reginaldo Nasser, da PUC-SP, declarações de Rússia e EUA não passam de teatro; já para Giorgio Romano, da UFABC, se houver alguma ação de Washington, ela será moderada, justamente para conflito não escalar

Lucas Estanislau e Tiago Angelo

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Uma guerra entre Estados Unidos e Rússia por causa da Síria está perto de acontecer? Especialistas em relações internacionais consultados por Opera Mundi dizem que a possibilidade é, no mínimo, improvável - e descartam um conflito imeditato entre as duas potências em território sírio.

Para Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC-SP, é “muito improvável” que tal conflito ocorra por conta da postura desses países. “Que potência entrou em guerra contra outra potência depois de 1945? Nenhuma. Estados Unidos e Rússia não entrarão em uma guerra mundial pela Síria”, afirmou.

Na quarta (11/04), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que usaria mísseis contra a Síria em resposta ao suposto ataque com armas químicas na cidade da Duma, ao norte do país. Em resposta, o embaixador da Rússia no Líbano, Alexander Zasypkin,  afirmou que “se houver um ataque americano, nós vamos derrubar os mísseis e atacar as posições de onde eles foram lançados”. Nesta quinta (12/04), Trump baixou o tom e publicou em seu Twitter que “nunca disse quando um ataque à Síria ocorreria”.

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Para professores de relações internacionais, guerra entre EUA e Rússia é "improvável"

Segundo Nasser, declarações como essas “não passam de um grande teatro, um jogo de cena por parte dos Estados Unidos e da Rússia”. "As grandes potências estão se lixando para os problemas humanitários na Síria”, disse. As provocações diplomáticas, afirma, servem “para tirar o foco dos reais problemas como milhares de mortes e as crises humanitárias na região”.

Resposta moderada

Para Giorgio Romano, professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), os Estados Unidos até poderão responder ao suposto ataque químico do último sábado (07/04) em Duma. Mas, segundo ele, qualquer ação norte-americana “será moderada o suficiente para não gerar caos”. “Imagino que eles [EUA] irão fazer o suficiente para mostrar que Trump não tem medo de usar força militar, mas não acredito que esse conflito possa escalar para um confronto direto entre os Estados Unidos e a Rússia”, afirma.

Para o professor, um conflito militar não deve ocorrer, em parte, porque "a Rússia é um país que possui muito apoio". "A China é um garantidor do poder que Putin tem na arena internacional. Então a Rússia não é um país isolado como às vezes se pensa", diz.

Segundo Romano, acusar a Rússia tanto de envolvimento no suposto ataque químico, quanto no envenenamento do espião duplo Sergei Skripal, tem como objetivo isolar e desestabilizar as ações de Moscou na região, além de enfraquecer a força política de Putin. “Tendo a achar que a coincidência dos dois casos envolvendo a Rússia servem para tentar desestabilizar sua influência e isolar o país”, afirma.

O professor diz também que vê com estranhamento a possibilidade de Moscou ter participado do ataque, já que os Estados Unidos haviam anunciado a retirada de suas tropas da região dias antes do suposto ataque. “Não consigo identificar nenhum interesse por parte da Rússia. O único interesse é daqueles que querem a volta dos Estados Unidos no conflito na Síria para evitar que Assad continue consolidando seu governo no país”.

“Não acho que seja de interesse do Trump radicalizar para destruir. Trump chuta o balde para recompor depois, como ele fez com a China. Ele deve bombardear a Síria com um impacto limitado, deve matar soldados russos, mas depois tentará recompor a situação”, afirma o professor.

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