O que Obama representou e o que realizou

Há um descompasso entre o Obama simbólico e o Obama prático, entre o dito e o feito. Se a vida dos norte-americanos mais pobres melhorou sob sua gestão, a política externa de seu mandato foi a de implantar o terror e a barafunda em outras terras

Atualizada às 15:16

Barack Obama fez um belo discurso na noite desta terça-feira (10/01). O centro do seu discurso foi a valorização da democracia norte-americana, a necessidade de ampliar o número de eleitores no país, de engajar cada cidadão na narrativa histórica que precisa, nas suas palavras, ser cada vez mais inclusiva, o que significa respeito ao outro, combate permanente ao racismo e busca por mais igualdade.


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Entre os feitos, destacou o programa de saúde (Medicare, mais conhecido pelo apelido, Obamacare) para a população mais pobre, a redução do desemprego, a retomada da economia. No campo da segurança, comemorou o fato de nos seus oito anos de mandato não ter ocorrido nenhum ataque promovido por organizações extremistas sediadas no exterior. E, na diplomacia, destacou o acordo que freou o programa nuclear iraniano sem disparar um único tiro.

Foi um discurso empolgante, cheio de aplausos e vitalidade, diante de uma plateia que vê em Obama um legítimo representante de seus sonhos. O discurso de despedida de Obama em 2017 nada fica a dever ao seu discurso de posse, em janeiro de 2009.

Desse modo, Obama sai fazendo um discurso coerente com sua eleição, oito anos atrás. Mas que, infelizmente, não se sustenta na sua atuação como presidente, especialmente fora dos Estados Unidos.

Agência Efe

O presidente dos EUA, Barack Obama, durante seu último discurso no cargo, nesta terça-feira (10/01)

Acompanhada e aparentemente estimulada a partir de decisões tomadas em Washington, a chamada Primavera Árabe, com poucas exceções (certamente a Tunísia e, em menor escala, o Marrocos), desaguou em menos democracia, onde ela já era escassa. Os movimentos contraditórios dos Estados Unidos na Síria fortaleceram o extremismo do Estado Islâmico.
 

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Num movimento semelhante ao ocorrido no Afeganistão sob Ronald Reagan, o regime de Bashar Al-Assad foi combatido estimulando o que há de mais reacionário, e não as forças que, de algum modo, poderiam de fato conduzir o país a um regime mais democrático. A interferência descarada no combate em chão e nas redes sociais também fortaleceu o argumento contrário: o do vale-tudo de Assad para manter um regime, nitidamente atacado não apenas pela resistência síria.

As intervenções mais ou menos explícitas no Oriente Médio alimentaram o caos e, por consequência, movimentos migratórios em massa, dentro dos próprios países da região e também em direção, sobretudo, à Europa – que, além da crise econômica desencadeada a partir de 2008, passou a ter de lidar também uma crise humanitária que desestabiliza a política local.

Na América Latina, as oposições venezuelana, brasileira, argentina, paraguaia e hondurenha não têm do que reclamar de sua gestão. De um modo ou de outro, foram todas reforçadas com dinheiro, know-how e discursos que enfraqueceram ou desestabilizaram regimes progressistas, que vinham obtendo resultados significativos no combate à miséria na região, incluindo massas de trabalhadores na economia, tanto na produção quanto no consumo.

Quanto ao Brasil, a simpatia pessoal expressa a Dilma não contou com um só movimento efetivo de apoio diante das pressões que levaram ao impeachment. Pelo contrário, foi visível a satisfação com a instabilidade criada, que certamente fragilizou os instrumentos multilaterais em que o Brasil se envolveu ao longo dos últimos anos: Unasul, Mercosul, Celac e Brics (com seu banco próprio de financiamento ao desenvolvimento).

Assim, há um descompasso entre o Obama simbólico e o Obama prático, entre o dito e o feito. Se a vida dos norte-americanos mais pobres de fato melhorou sob sua gestão, a política externa de seu mandato foi a de implantar o terror e a barafunda em outras terras, alimentando o racismo, o machismo e a xenofobia por todo o planeta – inclusive nos Estados Unidos, paradoxalmente, o que favoreceu a eleição de Trump.

Essa combinação que faz de Obama o presidente contraditório, que agrada uma esquerda ávida por simbolismos (não estou negando a importância deles, quero deixar claro) e uma direita que queria ver a América Grande novamente, talvez explique por que ele acaba o mandato tão popular.

Pode parecer insano, mas os eleitores de Donald Trump têm muito a agradecer à gestão Barack Obama.



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