Opera Mundi publica série especial sobre imprensa alternativa no Brasil

Série busca resgatar histórias dos jornais e revistas que se misturam com a da defesa da democracia, da resistência e da luta por liberdade e igualdade

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Em uma série de reportagens e vídeos especiais, Opera Mundi resgata parte da história da imprensa alternativa no Brasil no último século. Conversamos com os fundadores e participantes dos veículos da época a fim de revisitar as histórias de seus jornais, que se misturam com a da resistência no período de execeção democrática no país. 

Veja abaixo as reportagens já publicadas da série Memórias da Imprensa Alternativa no Brasil:

Oboré: jornalismo sindical e luta democrática

No final da década de 1970, o movimento operário serviu como um pólo catalisador que atraiu grupos de pessoas dispostas a lutar contra a ditadura civil-militar brasileira. Direções progressistas começavam a retomar o controle dos sindicatos e dar voz ativa aos trabalhadores. O exemplo do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e das greves de 1978-1980 traduzem o espírito de luta que rondava a época.

Era preciso reunir os dispersos e empoderar os trabalhadores no enfrentamento ao regime militar. Um grupo de jornalistas e artistas, empenhados no combate à ditadura, se dispôs a cumprir o papel da comunicação sindical: assim, a Oboré nasce para nunca ter um veículo próprio, mas para editar inúmeros jornais de sindicatos e marcar sua contribuição pela redemocratização do país.

 

O Trabalho: diálogo aberto e resistência à ditadura

Na segunda metade dos anos 1970, a ditadura civil-militar do Brasil começava a conhecer novas formas de resistência. O movimento estudantil reunia forças e buscava se recompor após anos de perseguição. Os operários colocavam fim às administrações "pelegas" dos sindicatos e assumiam uma postura progressista e reinvidicatória. Era preciso trabalhar para resistir - e o jornal O Trabalho traduzia esse espírito. 

Lançado no dia 1º de maio de 1978, a publicação que circula até hoje e que cobria passeatas, comícios e greves de operários surgiu como expressão de um tendência trotskista, a antiga Organização Socialista Internacionalista (OSI), da qual a Liberdade e Luta (Libelu) fazia parte. O jornal foi tão importante para esse grupo político que, hoje, a corrente política que se chamava OSI leva o nome de O Trabalho.

 

“Quilombo”, o jornal do negro, por Abdias do Nascimento 

De dezembro de 1948 a julho de 1950, um grupo de intelectuais negros, liderados por Abdias do Nascimento, fez publicar dez edições de Quilombro. O jornal estabeleceu um novo patamar na discussão dos problemas raciais do País, explicitando uma agenda política que rejeitava “a piedade e o filantropismo aviltantes” e lutava “pelo seu direito ao Direito”. O jornal também negava fortemente a ideia de que a luta contra o racismo não fazia sentido no Brasil, porque o problema não existiria por aqui.

A pauta de Quilombo, que acaba de ganhar uma edição fac-similar de seus números (Ed. 34, 128 págs.), impressiona, ainda hoje, por vários motivos. Em primeiro lugar, pela autoria dos textos. “À maneira dos melhores jornais americanos ou franceses da época, o Quilombo congregava, num mesmo espaço político e cultural, intelectuais negros e brancos, que emprestavam sua grandeza para a construções do pós-racismo brasileiro.


Amanhã: um jornal de estudantes para o movimento operário

Em 1967, o golpe civil-militar completava três anos e ainda não havia mostrado sua pior face - o que aconteceria em dezembro de 1968, com a instauração do AI-5. Os destinos do Brasil ainda eram incertos e a sociedade se movimentava na resistência ao regime dos militares. Neste ano, chegava às bancas um novo semanário com um nome que fazia referência ao futuro, ao que está por vir, ao Amanhã.

No dia 13 de março, foi impressa a edição número zero do semanário estudantil que falaria com os trabalhadores e duraria apenas sete números. "Veja os 5 golpes do fundo", era o que trazia como manchete a edição do Amanhã, denunciando irregularidades no recém-criado Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A segunda edição também tratava de questões ligadas ao Fundo de Garantia e trazia matérias culturais e até um caderno especial.

 

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Brasil Mulher: luta feminista por liberdade e anistia

Corria 1975, declarado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher. No Brasil – que vivia debaixo de forte repressão militar – grupos começam a se organizar cada vez mais em movimentos segmentados. Surge, por exemplo, o Movimento do Custo de Vida, em que grupos de mães da periferia pedem o congelamento dos preços de produtos de primeira necessidade, a criação de creches e reajuste salarial de acordo com a inflação.

É neste contexto que é criado o Brasil Mulher, um marco da luta feminista e da resistência à ditadura militar no país. Duas militantes idealizaram o jornal: Terezinha Zerbini, que se destacou por levantar a bandeira da anistia, em um momento em que o tema ainda era pouco discutido, e a jornalista e professora Joana Lopes, que, interessada pelo movimento, propôs a criação de um veículo que divulgasse a causa, e tratasse também de temas voltados às mulheres.


Árvore das Palavras: um jornal negro contra a ditadura

São Paulo, meados da década de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais “nanicos” assinados por estudantes que faziam resistência à ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar força em um ambiente que tinha portas fechadas aos que não pertencessem às elites do país. A criação de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta - e, neste contexto, surgiu o "Árvore das Palavras".

O "Árvore" foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade, atingindo diretamente o povo negro, em uma proposta unificadora. A ideia era inspirada em experiências ocorridas em Angola e Moçambique, onde havia a proposta de uma discussão política levada a cabo em uma linguagem mais simples. O nome alude à tradição africana de se reunir sob as árvores de baobá para ouvir a palavra dos mais velhos.


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