arte
22/09/2012 - 11h02 | Thais Caramico | Londres

Artista plástico brasileiro reúne sagrado e profano em galeria de Berlim

O paulistano Stephan Doitschinoff irá passar também por Zurich, Amsterdã, Kiev, Praga e Viena
   

Como a religião influencia a mente humana é um interesse antigo do artista plástico Stephan Doitschinoff, que abriu nessa semana sua primeira exposição solo em Berlim. No espaço da editora alemã Gestalten, a mostra "Heri, Hodie, Cras" (que significa Ontem, Hoje e Amanhã) apresenta novas pinturas, esculturas e instalações multimídias, além de dois curtas: Brilho do Sol e Tudo é Vaidade, performances realizadas em São Paulo e Lisboa.

Alexandre Vianna

Doitschinoff: "não acredito em sagrado, mesmo porque se existe o sagrado existe o profano, céu e inferno, deus e diabo"

Se o espaço urbano é uma representação de formas, práticas e crenças, é nele que se vê a vontade das pessoas em viver o dia a dia, as diferentes culturas e as expectativas que se cruzam pela cidade. Ali estão ideologias, confrontos e esperanças, como bem sabe Stephan, que se apropria das relações humanas para, através da arte, contar histórias que se revelam em símbolos.

Suas críticas sobre os sacrifícios e privações que a sociedade moderna enfrenta para viver são ácidas e surgem de forma iconoclasta e filosófica em diferentes técnicas: pinturas, esculturas, instalações e performances. É dessa forma que elementos folclóricos e referências religiosas se esparramam em narrativas de denúncia, renúncia e afirmação.

Daria até para dizer que Stephan anda com fé, desde que o significado da palavra fosse apenas mais uma alusão ao caminho que sua trajetória artística vem tomando. Reconhecido na cena urbana e em galerias e museus nacionais e internacionais, Stephan traz para o público suas influências mais diversas. O paulistano, com apelido de Calma, é filho de pastor evangélico, neto de espíritas, e passou a infância num bairro ocupado por um centro Hare Khrishna e um terreiro de umbanda.

Divulgação
O que se vê em sua obra, portanto, são reflexões. Com o tempo, absorveu um pouco de cada "história" e passou a expressar suas ideias com traços perfeitos e desenhos que explodem em cores e significados muito pessoais. "Eu não acredito em sagrado, mesmo porque se existe o sagrado existe o profano, céu e inferno, deus e diabo. E eu não acho que o mundo seja dividido dessa maneira simplista, são termos que só confundem. É como a ideia louca de que algo possa ser sobrenatural, como se algo pudesse existir fora da natureza" diz o artista a Opera Mundi.

["Crânio com a mandibula quebrada" (2012), obra de Stephan Doitschinoff que está em exposição em Berlim]

Em 2009, Stephan foi um dos seis participantes da mostra "De Dentro para Fora/ De Fora para Dentro", que levou para o Museu de Arte de São Paulo, o Masp, nomes que começaram suas carreiras com graffiti e outras intervenções urbanas, e que hoje são reconhecidos mundialmente. Na semana passada, durante a feira de arte contemporânea ArtRio, no Rio de Janeiro, foi um dos destaques ao servir um bolo delicioso em forma de tripas vermelhas e sangrentas para o público, fazendo assim um paralelo interessante entre intestino e cérebro, que começou com uma cena.

"Pra mim o cérebro representa a racionalidade e o julgamento, enquanto o intestino representa a emoção e a intuição. Então tínhamos duas pessoas ligadas por um intestino que compartilhavam uma relação baseada nesses sentimentos, só entre elas. Já no final do ritual o bolo foi sendo cortado e oferecido ao público. Eram cem quilos de massa e em duas horas não havia sobrado nem uma migalha", conta orgulhoso.

Até o dia 14 de outubro, um pouco de tudo isso pode ser visto na Gestalten, junto ao lançamento do livro CRAS (224 páginas, cerca de R$ 120), editado por Stephan e Baixo Ribeiro, fundador da galeria Choque Cultural - quem representa Stephan no Brasil. Esse é o segundo livro do artista pela editora alemã e reúne uma série de trabalhos realizados nos últimos quatro anos.

Depois de Berlim a mostra segue para Zurich, Amsterdã, Kiev, Praga e Viena. Escandinávia e Ásia já estão na sequência, antes de Stephan desembarcar na capital britânica. "Em Londres eu vou fazer algo maior, que não posso falar ainda, mas já adianto que pode ser na mesma galeria que um dia já representou o Banksy."

Lençóis, a cidade pintada

Entre 2005 e 2008, Stephan viveu em Lençóis, na Chapada da Diamantina. Foi ali que ele desenvolveu seu projeto artístico mais notório: pintar uma cidade inteira. Por três anos, mergulhou na realidade da cidade e manteve contato muito próximo com os moradores, fazendo das crenças e costumes do povo seu principal material de criação.

Aos poucos, foi mudando algo no pensamento e na rotina daquelas pessoas e transformando a paisagem da cidade num museu a céu aberto, um conjunto pictórico envolvendo desde os muros dos casebres até mesmo o cemitério e, claro, o lugar mais sagrado: a capela de Santa Luzia.

Extrapolou as questões sobre as dimensões político-sociais da arte pública, uma experiência documentada no filme Temporal (que você vê no vídeo abaixo) e em sua monografia "Calma. The Art of Stephan Doitschinoff",  publicada pela editora alemã Gestalten.

TEMPORAL : The Art of Stephan Doitschinoff (aka Calma) from Jonathan LeVine Gallery on Vimeo.

Da experiência de pintar uma igreja veio uma outra fase do artista: criar um templo fora da igreja. "Desde que terminei toda a série de pinturas e instalações em Lençóis, eu ainda passei bastante tempo acompanhando a relação das pessoas com o espaço de culto, as procissões, o altar, o templo. Decidi que não ia mais pintar nenhuma igreja, mas que eu queria criar instalações em forma de altares ou templos, e explorar um pouco esse tipo de relacionamento", diz.

Em ruas, vielas, museus, espaços público e galerias de arte, Stephan passou a construir seus pequenos altares e ainda esticando essa experiência visual para outros formatos. Nas ruas de Lisboa, montou uma performance como se fosse uma procissão, porém feita com atores, seu novo jeito intrigante de como a religião influencia a mente humana. "As pessoas passavam pela rua e participavam da performance, que para mim é uma outra maneira de interagir, às vezes sem entender muito bem o que está acontecendo, se é real ou não, e que portanto é interessante de ver."

Mais: www.doitschinoff.com



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