Com discurso 'pacifista', esquerda sionista contribui para extermínio do povo palestino

Por trás do ingênuo pedido por 'dois Estados para dois povos' e por 'diálogo', se esconde a perpetuação de um sistema de discriminação e segregação racial

Em sua recente viagem a Israel, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) parece ter descoberto a chamada “esquerda sionista”. O discurso desta esquerda preza pelo diálogo e seus líderes dizem buscar a paz. Eles culpam os extremistas, em geral os religiosos, e defendem a moderação como o caminho para a coexistência. Mas seriam eles capazes de encontrar uma solução para a questão palestina, caso tivessem a oportunidade?

Por trás do ingênuo pedido por “dois Estados para dois povos” e pelo “diálogo entre os povos” se esconde a perpetuação de um sistema de discriminação e segregação racial, onde os judeus sempre serão a fonte da democracia e da racionalidade e os palestinos serão os terroristas. Afinal, a esquerda sionista foi responsável pela criação de Israel e pela forma com que este Estado se configurou e se configura até hoje, e usa seu discurso para tentar preservar uma supremacia racial judaica, mesmo que tenha que abrir mão de parte da “Terra de Israel”.

O Sionismo Socialista, ideologia na qual se baseia a esquerda sionista, chegou à Palestina na década de 1920, no período da segunda Aliyá (imigração judaica à “terra de Israel”). Os Chalutzim (“Pioneiros”, em hebraico – nome dado a estes imigrantes, mesmo que já houvesse uma colonização judaica anterior) desembarcaram em uma região onde palestinos e judeus viviam integradamente, do ponto de vista social, econômico e cultural. Mesmo vindos da Europa Oriental e carregados dos ideais socialistas da Revolução Russa, não conseguiram desconstruir seu olhar orientalista e racista. Decidiram instituir a Avodá Ivrit (trabalho hebreu), que consistia em usar exclusivamente mão de obra judaica, sob o argumento de formar um proletariado e campesinato judaico que criasse vínculos à nova terra. Esse processo foi o que iniciou a segregação entre os dois povos e, posteriormente, levou aos primeiros conflitos. Basta lembrar os bucólicos Kibbutzim, comunidades agrícolas socialistas que, apesar do seu caráter coletivista e igualitário, não admitiam membros palestinos. Este processo pode ser bem observado no documentário Jaffa: The Orange’s Clockwork, que ilustra a deterioração das relações entre judeus e palestinos a partir da chegada da segunda onda de imigração, liderada pelos socialistas.

ishaip / Flickr CC

Jovens socialistas na manifestação pelo Dia dos Trabalhadores em Tel Aviv em 2009

O Kibbutz veio a se tornar a base econômica, social e cultural da nova sociedade judaica, motivada pelo lema “um povo sem terra para uma terra sem povo”, que via na Palestina a possibilidade de sua modernização e emancipação. O que os sionistas socialistas não esperavam era encontrar uma vibrante sociedade palestina no local, o que os impediria de concretizar o seu ideal máximo: a criação de uma Democracia Judaica.

A maneira que Ben Gurion, fundador de Israel e ícone da esquerda, encontrou para lidar com esse dilema veio à tona na chamada Guerra de Independência de 1948, de que a esquerda se orgulha de ter sido protagonista e por marcar a concretização do seu ideal. Esta guerra foi, de fato, uma enorme limpeza étnica, onde dois terços da população palestina – aproximadamente 800 mil pessoas – foram expulsos de suas casas e mais de 500 vilas foram destruídas. Neste grande passo, a estrutura da sociedade civil palestina fora aniquilada e, o que restou dela, exilada.

Era essencial provar, inclusive para eles mesmos, que os judeus eram os que possuíam o legítimo direito àquela terra. Por isso os israelenses sempre se referem àquela região como “Terra de Israel”, nunca como Palestina. Além disso, os palestinos que conseguiram permanecer em suas casas depois da guerra de 1948 foram chamados de “árabes-israelenses” e divididos em grupos etnicorreligiosos como árabes-muçulmanos, árabes-cristãos, beduínos e drusos, de maneira a mascarar suas raízes e seu passado comum. As aldeias destruídas foram enterradas embaixo de novos assentamentos, parques, florestas e estradas, recebendo nomes hebraicos para ocultar que, naquela região, se falava o árabe anteriormente. Para a esquerda sionista concretizar seu discurso, fora necessário exterminar uma cultura e apagar a sua história. Só desta maneira a Democracia Judaica poderia se tornar uma realidade.

Shajar Goldwaser

Kibbutz Tzipori, na Galileia, onde antes ficava a aldeia palestina de Saffuryia

Mesmo assim, ainda faltava algo à sociedade kibbutziana. Os israelenses ainda não haviam concretizado um dos seus maiores desejos: o de “poder rezar no Muro das Lamentações”, em Jerusalém. Não que antigamente não se pudesse rezar lá; desde que se tem registro, sempre houve uma comunidade judaica na cidade. Depois da guerra de 1948, em resposta à limpeza étnica feita por Israel, diversos líderes árabes expulsaram populações judaicas de seus países ou restringiram seus direitos, inclusive o Rei da Jordânia, que fora constituído como protetor de Jerusalém Oriental e barrou a entrada ao Muro das Lamentações.

Em junho de 1967, a Guerra dos Seis Dias eclodiu e Israel facilmente ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, os territórios que faltavam para controlar a Palestina na sua totalidade. Lá se encontravam, além dos habitantes nativos, os refugiados remanescentes das terras anteriormente conquistadas por Israel. Uma nova limpeza étnica a esta altura seria extremamente custosa, política e militarmente. Por isso, o status destes territórios, até os dias de hoje, é de Territórios Ocupados. Anexá-los significaria abrir mão de um dos dois princípios que havia guiado a esquerda israelense até então e definido o Estado de Israel: o caráter judaico, já que, se a população palestina anexada virasse cidadã, se tornaria maioria; ou o caráter democrático, já que Israel teria que virar um regime de apartheid explicitamente.
 

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Wikimedia Commons

Apoiadores do Meretz, partido israelense de esquerda, durante Marcha pelos Direitos Humanos em Tel Aviv em 2012 

A direita israelense optou por preservar o caráter judaico, e começou a tratar os novos territórios – mas não a população que neles habitavam – como parte de seu país. A esquerda, diferentemente, pretende não abrir mão de suas premissas e, para preservá-las, se dispõe a abrir mão dos territórios conquistados em 1967 e ocupados até hoje.

Entretanto, o problema da solução de “dois Estados” é exatamente o caráter da sua solução: dar aos palestinos o que fora ocupado em 1967, ignorando o que fora invadido, ocupado e limpado etnicamente em 1948, quando o Estado de Israel foi criado. Este discurso de “dois Estados para dois povos”, que seria aquele que traria a paz e a coexistência para a região, não leva em consideração a forma com que o Estado de Israel foi criado e os terríveis crimes dali resultantes. Ele também não visa uma melhor convivência com os palestinos, mas sim preservar a maioria judaica necessária para a manutenção do regime de supremacia etnicorracial da artificial democracia israelense, que segrega as partes não-judaicas dos seus habitantes.

A realidade dos Territórios Ocupados, entretanto, mostra que o projeto da direita teve sucesso absoluto. Nas últimas décadas, Israel construiu uma complexa rede de estradas, assentamentos, colônias agrícolas, centros industriais e até uma universidade na Cisjordânia, dentro dos Territórios Ocupados Palestinos, para uso restrito de judeus israelenses. Tudo está circundado por muros e cercas, com soldados israelenses fazendo a guarda, de forma totalmente integrada com o território internacionalmente aceito de Israel (baseado nas fronteiras de 1948). A anexação ainda não se deu de forma legal, mas a infraestrutura dos assentamentos judaicos mostra que aquelas terras já foram, na prática, incorporadas ao país.

Hoje, na Cisjordânia, moram mais de 500 mil colonos israelenses que, mesmo residindo fora de seu país, ainda possuem plenos direitos de cidadania, como se nacionais israelenses em território nacional israelense fossem. Isso em meio aos aproximadamente 3 milhões de palestinos que vivem sob regime militar, baixo um conjunto de leis militares e com acesso a recursos naturais completamente restrito. Isso configura uma clara situação de segregação racial entre as populações. Mas a Ocupação, mesmo depois de 48 anos, ainda possui o status oficial de temporária, e os únicos que realmente ainda acreditam nisso são os sionistas de esquerda. Em lugar de buscar propostas condizentes com a realidade, continuam defendendo políticas antiquadas, de um tempo em que uma retirada israelense ainda era viável.

Palestine Solidarity Campaign / Flickr CC

Mapa mostra como terras palestinas têm se tornado israelenses através de acordos e da ocupação

Na hora de buscar o diálogo com os palestinos, se portam de maneira arrogante. Apenas irão estreitar laços com seus semelhantes, laicos e ocidentalizados. Pouco importa quem os palestinos irão escolher como seus porta-vozes, e os motivos para tal. O Hamas, por exemplo, mesmo tendo sido eleito democraticamente em 2006 como maioria no Parlamento palestino, é considerado um grupo fundamentalista islâmico e terrorista, e, portanto, incapaz de dialogar, mesmo que suas declarações tenham demonstrado o contrário.

Também ignoram que os palestinos sejam os oprimidos dessa situação e, ao colocá-los num patamar de igualdade com os israelenses, desconsideram os inúmeros crimes e injustiças que os palestinos sofreram historicamente e sofrem atualmente. A esquerda condena os atentados realizados pelas milícias palestinas, enquanto se silencia perante os genocídios cometidos por seus concidadãos, a exemplo da Operação Margem Protetora em 2014, na qual foram mortos 2.200 palestinos em Gaza. Em relação a esta ação militar comandada pelos setores da direita, o líder do partido Avodá (Partido Trabalhista, de centro-esquerda), Isaac Herzog, se declarou favorável e afirmou: "Quando você se prepara a paz, também deve se preparar para a guerra, a fim de proteger seu povo, especialmente nesta região". A líder do Meretz (partido de esquerda), Zehava Gal-On, após uma reunião com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, naquela ocasião declarou: "Eu também lhe disse que não há debate sobre o nosso legítimo direito de se defender, mas, com base em toda a minha experiência, sei que a força não erradicará o terrorismo".  Mesmo se mostrando mais levianos que a direita, ainda conservam o seu belicismo e não reconhecem a violência palestina como resposta a quase um século de colonização.     

A esquerda de Israel se considera como tal pelo simples fato de defender que, entre os judeus, deve haver mais igualdade e participação política, mais direitos civis e mais liberdade individual. Em relação aos palestinos, ela se mostra tão racista quanto a direita. Ela não reconhece os crimes que ela própria cometeu contra os palestinos, não reconhece que os palestinos têm o direito de retornar às suas vilas, terras e cidades roubadas, não reconhece o direito legítimo da população palestina de resistir contra a massiva ocupação militar que sofre e, finalmente, defende um modelo de Estado nacional baseado na segregação etnicorracial – o Estado Judaico. Com seu discurso proto-pacifista, contribui para o lento e contínuo extermínio do povo palestino, fazendo da ocupação uma situação permanentemente temporária. Não está preparada para uma solução justa, que una todas as pessoas de Israel e da Palestina sob um regime civil e laico, com direitos universais a todas as pessoas, independentemente de etnia ou religião. A esquerda sionista de Israel não está preparada para a democracia.

 

(*) Shajar Goldwaser é israelense residente no Brasil e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP.

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