Guerras do Brasil.doc

Narrativa do documentário fica a cargo, em especial, de historiadores, antropólogos, jornalistas investigativos, tendo suas falas apoiadas em fatos históricos e extensos estudos, que resultam em depoimentos convincentes e bem concatenados

Vera Moll

Rio de Janeiro (Brasil)

No documentário “Guerras do Brasil.doc”, apresentado pela Netflix, em vários episódios, dirigido por Luiz Bolognesi, a história do Brasil é revisada, inspirando uma reorganização dos conhecimentos e certezas adquiridas ao longo dos anos. O belo cenário encanta e acrescenta valor estético ao projeto. Dele fazem parte fotos, gravuras e pinturas, quase todas de domínio público, em acervos de museus, bibliotecas e outras instituições brasileiras. A narrativa fica a cargo, em especial, de historiadores, antropólogos, jornalistas investigativos, tendo suas falas apoiadas em fatos históricos e extensos estudos, que resultam em depoimentos convincentes e bem concatenados.

O tema escolhido surpreende, somos considerados um povo pacífico que realizou sua independência às margens do Ipiranga, onde o jovem e afoito príncipe Pedro I ergue a espada no ar e reitera o gesto em palavras que ficaram gravadas nos livros e no imaginário dos brasileiros: “Independência ou Morte”. O grito, porém, não se concretiza em corpos espalhados pelo chão e, sim, na coroação do nosso primeiro imperador. E o que dizer de como foram alienados de suas terras as centenas ou milhares de nações indígenas, sem que uma guerra de conquista tenha sido levada a efeito, como afirma Ailton Krenak, historiador e filósofo indígena, no primeiro dos episódios. Na proclamação da República, o governo passa das mãos da monarquia para as dos guardiões das armas no país, os militares. Uma vez mais, elas não foram disparadas.

Como explicar que um povo pacífico, hoje, se veja convulsionado por uma violência extrema, que resulta em 60 mil mortos por ano?   

Ailton Krenak abre o documentário criando assombro e estranhamento: o Brasil é uma invenção, não houve um evento de fundação como nos ensinou a história oficial com a chegada da esquadra portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral em 22 de abril de 1500 registrado como a Descoberta do Brasil. Era habitado por nações indígenas que aqui estavam a milhares de anos, ocupando terra de dimensões continentais. Os guarani, por exemplo, no dizer dele, descidos dos Andes, tinham consciência de sua identidade cultural há três ou quatro mil anos. 

Na visão de Ailton Krenak, como foram os invasores recebidos pelos habitantes nativos da Terra?

Como uma boa dose de ironia e graça, ele nos diz que no primeiro século em que aqui estiveram, os europeus chegavam famintos, cobertos por feridas causadas por escorbuto e toda série de pragas, eram alimentados, curados, comiam raízes e frutos, se deixados a sua própria sorte, morreriam de fome. 

Que conclusão se pode tirar dessa relação descrita por Krenak? Da parte das nações estabelecidas em sua extensa costa, o sentimento seria de alteridade, que expressa a capacidade de interagir com o outro, com o que é diferente. Enquanto culturas singulares que eram não moviam seus esforços na destruição e extinção daquela com a qual se defrontavam, mas, estabeleciam uma relação de troca e aceitação da diferença.

E o que traziam os recém-chegados para compartilhar?

Em primeiro lugar, as bactérias. No Novo Mundo, a varíola e o sarampo varreram da face da terra uma quantidade incalculável de seres humanos que não possuíam imunidade às pestes que os recém-chegados escondiam no interior de seus corpos e, como dizia Darcy Ribeiro, fediam. Como informa Carlos Fausto no documentário, as doenças os abatiam e enfraqueciam. Quando ocorriam as epidemias, seriam tantos os mortos que não havia como enterrar todos ele.

Como o maior genocídio da história da humanidade, de que fala Carlos Fausto, teve lugar na América, que possuiria à chegada dos europeus em torno de 80 milhões habitantes? 

No México e nos Andes, houve uma guerra de Conquista, afirma o historiador. No planalto andino, os espanhóis logo encontram o tesouro, aqui, as minas de ouro só seriam encontradas no final do século XVII. Iniciaram, portanto, os portugueses a cultura da cana e a produção do açúcar. Historiadores e antropólogos enfatizam: a escravidão dos índios segue como consequência natural da produção do açúcar, um contingente deles é levado como mão de obra nos engenhos. Por outro lado, aqueles que não aceitam a fé católica são considerados inimigos da coroa e, a partir de 1570, sujeitos à guerra justa e ao trabalho escravo.  Os índios reagem ateando fogo aos engenhos e fugindo para os matos. Em sentido oposto a esse, algumas sociedades indígenas se aliam aos portugueses que se utilizam delas na defesa da colônia que não poderiam de outro modo guarnecer. Jogando uma tribo contra a outra, expulsam os franceses e holandeses e, com a mesma artimanha, assim foram exterminadas as nações tupi que ocupam a costa brasileira.  Somadas essas estratégias, demonstram a história e a antropologia, os colonizadores despovoam o território e eles são obrigados a trazer os africanos para o trabalho nos engenhos.      

No dizer de Luiz Felipe Alencastro, entre 1550 e 1856 entram no Brasil 12 milhões de africanos, o maior contingente de pessoas transportadas de um país para outro. Com a crueldade dos trabalhos a que eram submetidos, a média de vida de um escravo era de 20 anos. (Não há, no entanto, consenso entre os historiadores sobre essas datas). A escravidão dá lugar à outra guerra, os negros fogem das fazendas e formam os quilombos, o maior deles o de Palmares. Com a Invasão Holandesa, que ataca os engenhos portugueses, a fuga é facilitada, a população palmarense dá um salto, seriam 20 mil pessoas que se distribuíam em vários mocambos.  Os quilombos se organizam como uma espécie de acampamento militar, e, somente, em 1694, sob o comando dos bandeirantes, os palmarenses são vencidos. Há relatos de que, ao final do embate, havia montanhas de mortos, Zumbi é fuzilado e sua cabeça decepada. 

Reprodução/Netflix
Guerras do Brasil.doc ´revista a história do Brasil

O terceiro episódio do documentário foca no o maior conflito armado da América do Sul: A Guerra do Paraguai.  Temos ideia da sua dimensão, mas os historiadores citam nomes, números, responsabilidades. A guerra é declarada quando Solano Lopez invade o Mato Grosso em 1864. Caxias entra em Assunção em dezembro de 1868 e toma a cidade. Ele considera que a guerra está acabada e se demite, não quer ser o coveiro do Paraguai, D. Pedro II, porém, é inflexível, a guerra só termina quando Solano Lopez se entregar. Em 1º de março de 1870, Solano é capturado e morto, com um saldo trágico de 300 mil mortos no Paraguai, que corresponde a 75% de sua população masculina com mais de 20 anos, e 70 mil soldados aliados morrem.

Como mostra o documentário em seu 4º episódio, a República é proclamada por um golpe militar. Em um regime onde o povo deveria reger seu próprio destino, a insatisfação popular, porém, é grande: as mulheres e os analfabetos não tinham direito ao voto e o resultado das urnas era fraudado pelas oligarquias. O sentimento era de que o voto não valia nada e as condições de vida miseráveis. Em 1922, 17 militares e um civil marcham pela Avenida Atlântica em direção ao Forte de Copacabana. Salvam-se apenas dois, os outros são impiedosamente mortos. Esse ato heroico e simbólico dá início ao tenentismo. A revolta dos tenentes vai ser fortalecida pelos movimentos civis. Em 1º de novembro de 1930, Getúlio Vargas, aclamado pelo povo e pelas tropas revolucionarias, é conduzido ao Palácio do Catete no Rio de Janeiro. Os civis articulam a revolução, mas quem faz a revolução são os militares. É um Golpe de Estado.  Getúlio derruba a constituição e instaura um novo governo. Uma ditadura.

E a pergunta que fica ao fim do 5º episódio, em uma guerra que envolve os cartéis do crime, as 60 mil pessoas assassinadas no Brasil, anualmente, são resultado dessas políticas desastradas de ocupação, colonização, poder e governos autoritários? 

“Guerras do Brasil” tem outros méritos e acertos. Utilizando como cenário pinturas, gravuras, aquarelas e fotos, que fazem parte dos acervos dos museus, bibliotecas e outras instituições, os tornam conhecidos de um público maior que pode se orgulhar da rica produção de artistas de diferentes épocas, que são, a um tempo, obras de arte e testemunho histórico. 

“Guerras do Brasil” nos obriga a lidar com nossos sentimentos diante da história. As culpas recalcadas são trazidas à consciência para serem analisadas. Carregamos o fardo de sermos responsabilizados pelo extermínio dos índios, a escravidão e a Guerra do Paraguai da qual esse país nunca consegui se recuperar. Mas os fatos que a história registra não são previsíveis em seus desdobramentos, o caso da Guerra do Paraguai, por exemplo, o soldado que lutou ao lado do soldado negro não vai mais perseguir escravos, como ressalta a historiadora Mary Del Priore. Em 1888 é assinada a Abolição da escravidão.  A caserna vai se politizando, diz a seguir o historiador Rodrigo Goyana Soares, o baixo oficialato começa a aventar algumas ideias republicanas, em 1889, a República é proclamada. Resultado, porém, de um golpe militar. 

Outro ponto a destacar em Guerras do Brasil é o seu capital humano: historiadores, antropólogos, jornalistas investigativos, cientista politico, sociólogos e, outros, que são os narradores e produtores de conteúdo que sustenta o documentário.  A excelência do saber gerado nos centros de pesquisa dentro das universidades ou fora delas impressiona e seduz o telespectador talvez porque passe despercebido em uma sociedade pouco atenta à cultura e à produção intelectual.

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Volto ao primeiro episódio, para uma última reflexão, quando, no final dele, Ailton Krenak adota um tom provocativo, mas eu vejo um lampejo de troça em seus olhos: Nós brasileiros, que descendemos e nos colocamos ao lado desses usurpadores, somos ladrões. Mas, o povo brasileiro se formou de índios, brancos e negros, sim, os índios também são brasileiros, como afirma o Ministro Aires Brito e o professor José Ribamar Bessa Freire, que dirige o departamento de estudos indígenas na UERJ. 

Lembro-me, porém, das palavras de Jorge, índio Guarani, protagonista do romance Matalauê está me chamando. Expulsos de sua aldeia em Niterói, eles aceitam o oferecimento do prefeito de Maricá, uma vez lá instalados, o prefeito volta dizendo que a área é dos espanhóis - isso aqui vai virar um resort. Jorge não consegue conter a torrente de palavras: “As pessoas falam, vocês são os verdadeiros donos da terra, mas as coisas se inverteram, se a gente olhar, o índio até é o dono da terra, mas acho que devo falar isso, nenhum de nós tem mais de cem anos, o que a população tem de fazer é estar unida, e essa união tem de partir dos governantes, não da população”. Eles se mudaram porque temiam o momento em que acordariam cercados pela polícia que os obrigariam a sair, como fizeram, com o auxílio de bombas, na aldeia Maracanã. Jorge diz, “essa é mais uma luta nossa, a FUNAI está acompanhando a negociação, a gente não sai daqui. A FUNAI trouxe uma proposta, o documento está em cima da mesa, não de uma aldeia, mas um Parque Tupi Guarani”. 

Os índios tupinambá habitavam o estado do Rio com muitas aldeias em torno da Baia de Guanabara, embora seu número seja calculado em milhares, alguns autores como Pierre Clastres, em outra perspectiva, avaliam que podiam ultrapassar um milhão de indivíduos, mas já no século XVII foram exterminados e estão virtualmente extintos. O Parque Tupi Guarani nessa APA em Maricá teria não só um valor de demarcação de terras indígenas, como um valor simbólico e educativo que a mim agrada como testemunha dessa luta.


(*) Vera Moll é escritora e lançou o romance Matalauê está me chamando.

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