Revista francesa é processada após publicar charges de Maomé

Todos os exemplares foram vendidos em duas horas; publicação espera bater recorde após segunda tiragem

João Novaes

A ONG Associação Síria pela Liberdade entrou com uma ação judicial em um tribunal de Paris contra a revista satírica Charlie Hébdo, que suscitou polêmica ao exibir, nesta quarta-feira (19/09), charges provocativas do profeta Maomé – em uma delas, ele aparecia nu na contracapa.

O grupo acusa a publicação de ter cometido “incitação pública à discriminação, ao ódio ou à violência nacional, racial ou religiosa” e ainda “difamação pública racial e religiosa”, segundo o texto da ação. Em Meaux, zona metropolitana de Paris, a Associação dos Muçulmanos local também acusou judicialmente a revista de difamação e injúria pública.

“Queremos evitar, com essa ação judicial, que os muçulmanos não participem a manifestações violentas na rua”, disse Mohamed Iriqat, representante da associação síria. “A liberdade de expressão tem limites, ela não pode encorajar o ódio”, disse.

Agência Efe

O diretor da revista, conhecido como Charb, disse antes da publicação dos desenhos que eles seriam polêmicos

Os principais jornais franceses se abstiveram de reproduzir a charge com Maomé nu. Seu diretor, que se identifica apenas como Charb, ainda não se manifestou nesta quarta (19/09). Ontem (18/09), ele admitiu que as caricaturas seriam “polêmicas”, mas acredita que a “liberdade de expressão” não pode ser cerceada ou isso levaria a uma “vitória dos extremistas”.

O advogado da Charlie Hébdo, Richard Malka, afirmou que “essa acusação parece “mais fantasista do que as caricaturas que são publicadas na revista. Em sua opinião, a denúncia não será nem recebida para análise pelo tribunal. “Algo me diz que não precisarei julgar esse caso”, afirmou.

Exemplares esgotados

Por outro lado, a publicação polêmica teve uma resposta muito positiva comercialmente. Todos os 75 mil exemplares da revista colocados nas bancas foram vendidos em apenas duas horas. O jornal deverá colocar à venda outros 200 mil exemplares na sexta-feira.

A média de vendas em bancas da publicação é de 45 mil exemplares, além de onze mil assinaturas.

“O efeito é sempre esse quando satirizamos o islã radical”, diz Charb, codinome do editor da revista. Em novembro do ano passado, um número rebatizado de “Charia Hébdo”, uma paródia à lei islâmica, também atingiu a marca de 200 mil vendas. “Quando fazemos números muito provocativos com o papa, observamos os mesmos números de vendagem. Os católicos integristas não provocam a mesma reação da mídia. Mas quando temos problemas com os muçulmanos, todo o mundo se mobiliza”, ironiza Charb.

O recorde de vendagem da publicação, no entanto, é de 2006, quando a revista reproduziu a série de doze caricaturas de Maomé publicadas um ano antes no jornal dinamarquês de extrema-direita Jyllands-Posten, que também provocaram muitos protestos nos países muçulmanos. Na ocasião, foram 480 mil vendas, sendo 100 mil na primeira edição.

Críticas

Na Casa Branca, o porta-voz da Presidência, Jay Carney, afirmou que o governo questiona a escolha editorial da revista. “Sabemos que essas imagens são muito chocantes para muitas pessoas e podem provocar reações violentas”. “Mencionamos regularmente a importância de se proteger a liberdade de expressão, que consta em nossa Constituição. Desta forma, não questionamos o direito de tais coisas serem publicadas, mas a escolha que direcionou a decisão delas serem publicadas”.

O Osservatore Romano, jornal semi-oficial do Vaticano, classificou a iniciativa de “discutível” por “jogar óleo no fogo”. “Enquanto procuramos a duras penas diminuir a tensão que atravessa o mundo islâmico em razão do filme ‘A Inocência dos Muçulmanos’, nos arriscamos hoje de abrir uma nova frente de protestos”, disse a publicação através de um editorial.

Reprodução/Charlie Hébdo
Para Hassem Chalgoumi, presidente da Conferência dos imãs na França, a atitude da revista foi “irresponsável”, em entrevista ao jornal Le Figaro. “Nesse contexto violento causado pelo filme anti-islã e com manifestações que inflamam o mundo muçulmano, a atitude da Charlie Hébdo foi irresponsável. Fizemos tudo para apelara à calma por dias, diminuir a tensão, condenar a violência. Essa revista, por inconsequência ou interesse em aumentar as vendas, reavivou tudo isso no pior momento”.

O líder religioso francês afirmou, no entanto, que a associação não prestará queixa do jornal à justiça por acreditar na liberdade de expressão. “Prefiro responder pelo diálogo. Não se defende o profeta pela violência, mas pela solidariedade, tolerância, perdão, fé e amor”.

No mundo árabe, todos os partidos políticos e representações muçulmanas foram unânimes em condenar as caricaturas, mas também pediram calma aos fiéis, pedindo que as manifestações contrárias ocorram em um clima pacífico.

No Egito, Essam el Eriam, membro do Partido Liberdade e Justiça, representante da Irmandade Muçulmana, disse que a agremiação “rejeita e condena as caricaturas francesas que desonram o profeta, além de condenar toda ação que difama o sagrado”. Ele também comparou o caso com as fotos íntimas da princesa Kate Middleton e de seu marido, o príncipe William, censuradas no Reino Unido: “Se o caso de Kate é uma questão de proteção da vida privada, as caricaturas são um insulto a todo um povo. As crenças dos outros devem ser respeitadas”.

O ministro marroquino do Turismo, Lahcen Haddad, julgou inúteis e mesquinhas as caricaturas de Maomé. “Não sou uma pessoas religiosa, e acredito realmente na liberdade de expressão, mas tudo implica em certa responsabilidade” da mídia. “Deveríamos ignorá-los, tratá-los com indiferença. Esse debate não deveria ser regido por um produtor de cinema ou um caricaturista”, afirmou.

Histórico

A revista, de orientação anarquista à esquerda, já possui um histórico complicado envolvendo polêmicas com grupos muçulmanos.

Em 2006, ela reproduziu as charges de Maomé no Jyllands-Posten que, na época, também provocaram uma onda de protestos no mundo muçulmano. Embaixadas da Dinamarca chegaram a ser queimadas em países de maioria islâmica. Algumas das caricaturas comparavam o profeta a um cachorro e associavam a religião ao terrorismo. A revista foi absolvida em primeira e segunda instâncias na Justiça francesa.

No ano passado, sua redação foi incendiada por extremistas islâmicos, quando prometeu publicar novas caricaturas do profeta. Em resposta e com a ajuda dos jornais Libération e Le Monde, saiu com um dia de atraso com uma caricatura de Charlie beijando um muçulmano na boca sob o título: “o amor é mais forte que o ódio”.

A Charlie Hébdo se posiciona criticamente em relação ao integracionismo cristão e ao muçulmano. Também reivindica o direito de cartunistas, desenhistas ou redatores de revistas satíricas de fazerem piadas da forma que quiserem e sobre o que bem lhes interessar.

“Compreendemos perfeitamente que um muçulmano não queira ver desenhos de seu profeta, nem comer porco, muito menos rir dos desenhos de ‘Charlie’. Mas há outros que não são muçulmanos. Portanto, temos direito de desenhar Maomé, comer porco ou rirmos de qualquer coisa. Também não somos cristãos, judeus ou budistas”, disse o editorial da revista na ocasião.

O texto também afirma que os muçulmanos foram “as primeiras vítimas do incêndio criminoso e noturno que incendiou a sede da revista semanal. (...) Só torcemos para que esse incêndio tenha sido, na verdade, organizado pela extrema-direita, com o intuito de desacreditar todos os muçulmanos”.
 

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