Melhor saída para a crise na Bolívia é a via eleitoral, diz chanceler de Evo Morales

Diego Pary, em entrevista exclusiva a Opera Mundi em São Paulo, afirmou que 'a Bolívia não pode seguir vivendo aos pés dos fuzis das Forças Armadas' e que as conquistas dos anos Morales 'devem ser mantidas'

A Bolívia passou por um golpe de Estado no último dia 10 de novembro que forçou a renúncia do ex-presidente Evo Morales e levou a senadora de direita Jeanine Áñez a assumir o governo interinamente. 

No último domingo, Áñez aprovou a convocação de novas eleições. Nesta terça-feira (26/11), em São Paulo, em entrevista exclusiva a Opera Mundi, o ministro das Relações Exteriores do governo Morales, Diego Pary, que deixou o país logo após a renúncia de Evo, disse que a melhor maneira de solucionar a crise política boliviana é pela via eleitoral.

“Acredito que, apesar do que aconteceu com o golpe de Estado, nossos movimentos sociais tomaram uma decisão sábia, a decisão de ir às eleições. O mais importantes neste momento é que devemos deixar que aconteçam as eleições e que a via eleitoral é a melhor saída para resolver esse momento de crise”, disse o ex-chanceler de Evo Morales.


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Segundo Pary, “seguir enfrentando as Forças Armadas e a polícia nacional, que estão fortemente armadas com armas de alto calibre, é o mesmo que seguir entregando a vida de bolivianos e bolivianas”.

O ministro de Morales afirmou que está trabalhando em conjunto com ex-presidente e o ex-vice-presidente Álvaro García Linera para denunciar o golpe de Estado, pacificar o país e reestruturar a militância partidária do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo. “A Bolívia não pode seguir vivendo aos pés dos fuzis das Forças Armadas. É um país que teve grandes conquistas na última década e essas conquistas devem ser mantidas”, disse.

Pary ainda afirmou que se reuniu com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com outros atores políticos brasileiros com quem conversou sobre o “processo eleitoral que está sendo elaborado na Bolívia”. 

“O que estamos fazendo é informar os movimentos sociais, os partidos políticos, as autoridades dos governos sobre a crise política que a Bolívia sofre, sobre o rompimento da ordem constitucional e fundamentalmente convocando-os para que nos acompanhem para que o próximo processo eleitoral possa ser o mais transparente e o mais justo possível”, afirmou.

Leia a entrevista na íntegra:

Opera Mundi: O governo de Áñez disse que convocará eleições em 120 dias. O MAS participará deste processo?

Diego Pary: Eu acredito que é muito importante mencionar que a Bolívia sempre encontrou saídas, inclusive durante as crises mais profundas que teve. Neste caso, há um claro rompimento da ordem constitucional. No entanto, os diferentes atores da sociedade boliviana, organizações sociais, movimentos sociais, os atores políticos, entraram em um acordo para convocar eleições em breve. Eu acredito que isso é muito importante porque em um momento de crise como a que está vivendo o país não há outro caminho que não seja uma solução democrática. E neste caso são as eleições que vão acontecer nos próximos dias.

O senhor falou com o presidente Evo Morales depois do golpe? Como ele está?

Sim, estive nas últimas semanas com o presidente Evo Morales. O presidente está bem, está tranquilo, está constantemente acompanhando os acontecimentos que estão ocorrendo no país. Acredito que ele nunca deixará de acompanhar o que acontece na Bolívia. Mas é importante que, além disso, possa retornar ao país. Sua maior aspiração é poder retornar e eu acho que qualquer cidadão, qualquer pessoa que está fora do seu país sempre aspirará voltar a seu país e poder exercer todos seus direitos no seu território. 

O presidente Evo Morales acredita que poderá voltar antes das eleições? Em quais condições ele planeja voltar à Bolívia?

Está claro que a nova lei que foi aprovada para as eleições que se realizará nos próximos meses estabelece que quem já cumpriu dois mandatos em um determinado cargo não poderá concorrer. No entanto, o presidente tem interesse de poder estar no país para participar dos diferentes eventos, acontecimentos, para poder acompanhar o processo eleitoral. Acredito que está no seu direito, como todo boliviano. Esperamos as condições necessárias para que ele possa retornar.

Conquistas dos anos Morales 'devem ser mantidas', disse ex-chanceler (Foto: Haroldo Ceravolo Sereza)

Como se organiza a resistência? Como o senhor e o presidente Evo Morales trabalham com esse tema?

Tivemos importantes mobilizações durante a última semana para fazer frente aos acontecimentos que ocorreram no dia 10 de novembro. Acredito que os movimentos sociais tomaram a direção e a decisão de poder se preparar para caminhar pela via eleitoral. Não queremos que haja mais mortes, até agora já temos 32 pessoas mortas, temos mais de 750 pessoas feridas por balas, mais de 1300 pessoas presas. Acredito que como atores sociais, movimentos políticos, não podemos seguir incitando a confrontação, é o que eu penso. Creio que uma saída prudente, uma saída efetiva, é ir pela via eleitoral e deixar o povo boliviano decidir que projeto político deve continuar.

Na noite do golpe o senhor estava com Evo Morales? Como aconteceram as coisas, como era o clima?

No dia 10 de novembro eu estava acompanhando o presidente efetivamente até o último momento desde que saiu da cidade de La Paz. Vocês sabem que todo o movimento de rompimento da ordem constitucional nasceu de um movimento civil em Santa Cruz de la Sierra. Posteriormente, foi se somando a outros departamentos, se somando a outros setores, principalmente nas cidades. E o ponto de inflexão foi o fato da polícia ter se amotinado. A polícia deixou de obedecer ordens do governo constituído e se somou às mobilizações. Isso realmente causou um desequilíbrio. O papel das Forças Armadas teve um efeito muito importante já que, no final da tarde, as Forças Armadas anunciaram que estavam sugerindo ao presidente que renunciasse, e o presidente, sob a pressão gerada pelos atores civis, pela polícia nacional e pelas Forças Armadas, se viu obrigado a renunciar. Depois disso, o presidente viajou até o trópico de Cochabamba, onde anuncia sua renúncia à presidência e, da mesma maneira, o vice-presidente Álvaro García Linera. A partir daquele momento, quando se cria um clima diferente, se dão os acontecimentos que todos vocês conhecem.

Havia algo que Evo poderia ter feito para evitar o golpe?

Tínhamos duas opções. A primeira era que, sob a pressão gerada pelos diferentes atores, o presidente renunciasse. A outra opção era que ele se mantivesse exercendo a presidência, mas isso significava mortes, significava derramamento de sangue dos bolivianos, confrontos entre os bolivianos. Apresentando sua renúncia, o presidente quis evitar perdas de vidas humanas, uma confrontação entre os bolivianos que derramasse sangue. E isso foi evitado. Por isso que, apesar de ter sido pressionado pela polícia, pelos comitês civis e pelas Forças Armadas, o presidente tomou a decisão de renunciar e, obviamente, uma renúncia sob pressão, sob coação, é interpretada como um rompimento da democracia.

Quatro dias antes das eleições, o presidente Evo Morales afirmou que tinha gravações de civis e ex-militares que planejavam um golpe. O senhor escutou essas gravações? Algum membro do governo de Áñez foi reconhecido nesses áudios?

Conforme os dias passam, existem situações que vão ficando mais claras com as informações que vão saindo, e as autoridades que estão convocadas a investigar isso que devem verificar justamente esses áudios, verificar toda a informação que está ali. Mas é evidente que houve um processo de desgaste e um processo de desestabilização contra o governo legalmente constituído.

Mas o senhor ouviu essas gravações?

São as gravações que saíram em meios de comunicação e elas teriam que ser verificadas e teriam que ser confirmados pelas autoridades competentes.

Haroldo Ceravolo Sereza
Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, Diego Pary afirmou que 'a Bolívia não pode seguir vivendo aos pés dos fuzis das Forças Armadas'

Qual é o papel dos EUA no golpe? 

Foram múltiplos atores que agiram nesta ruptura constitucional na Bolívia. Os comitês civis, com requintes fascistas, a polícia boliviana, a polícia nacional, as Forças Armadas, mas também existiram forças externas que influenciaram muito. Uma dessas forças externas é a OEA [Organização dos Estados Americanos], sem dúvida, é demasiadamente conhecida a influência dos Estados Unidos através da OEA. Acredito que, de alguma maneira, houve uma influência em todos os acontecimentos que se deram, ainda que não somente da parte deles, mas também de outros atores internos.

Mas os EUA, além de reconhecerem o governo de Jeanine Áñez, celebraram a expulsão de médicos cubanos e dos diplomatas venezuelanos da Bolívia. O que o senhor acha disso?

Essa é uma atitude claramente intervencionista, que nós sempre rechaçamos. Afinal, essas decisões são decisões que os governantes bolivianos deveriam tomar e não corresponde a outros governos se intrometer nesse tipo de acontecimento.  

O Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer o governo de Áñez e a negar a existência de um golpe. Como o senhor analisa a posição do governo brasileiro durante e após o processo?

Acredito que os diferentes países foram tomando posições, vários países condenaram o golpe. No caso do Brasil, isso não aconteceu. O que é sugerido é que se tome uma posição mais de equilíbrio, mas também respeitamos as decisões que cada país toma. Não temos elementos que nos permitam afirmar que houve ingerência. 

Sobre os militares. Como era a relação do governo Evo Morales com o comandante das Forças Armadas William Kaliman, que no dia 10 de novembro veio a público sugerir que o presidente renunciasse?

Antes de ocorrer a ruptura constitucional no país, houve um relação de coordenação, de diálogo, de modo que não se identificaram elementos que nos levassem a interpretar que havia uma conspiração interna. 


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Alguns dos militares envolvidos no golpe receberam treinamento nos EUA. O que pensa sobre isso?

Alguns deles participaram de reuniões e eventos que aconteceram nos EUA como parte da formação das forças armadas. No entanto, não temos elementos que nos permitam afirmar que algo estava sendo planejado.

O senhor acredita em reverter o golpe? Porque Jeanine Áñez fala como uma ditadora, o grupo que está no poder na Bolívia é pequeno e muito radical. Como um grupo como esse pode reconduzir uma reconciliação?

Esse é um momento importante na história da Bolívia, um momento de ruptura, um momento no qual se deve tomar decisões históricas. Acredito que, apesar do que aconteceu com o golpe de Estado, nossos movimentos sociais tomaram uma decisão sábia, a decisão de ir às eleições. Porque, neste momento, seguir enfrentando as Forças Armadas e a polícia nacional, que estão fortemente armados com armas de alto calibre, é o mesmo que seguir entregando a vida de bolivianos e bolivianas. O mais importantes neste momento, da nossa perspectiva, de uma perspectiva pessoal, é que devemos deixar que aconteçam as eleições e que a via eleitoral é a melhor saída para resolver esse momento de crise. Entretanto, para existirem eleições que realmente busquem um momento de reconciliação nacional, será o momento em que se realizem novas eleições, na qual sejam eleitas novas autoridades. Mas, para chegar neste momento, também é importante que, a partir dos acordos que foram construídos até este momento, seja garantida a participação em igualdade de condição de todos os partidos políticos, se protejam os direitos políticos e os direitos civis de todos os atores que farão parte das eleições que serão realizadas.

Por que ocorreu o golpe? O senhor elencaria o principal motivo?

Eu acredito que o principal elemento é que na Bolívia não se conseguiu... parecia que íamos por um bom caminho, mas não se superou essa luta de classes que existe, de um setor indígena, camponês, operário de um lado, e dos setores da oligarquia boliviana, de grupos de empresários e setores da classe média. Esse último nunca aceitou que um presidente indígena tenha chegado ao poder e tenha conduzido o país pelos anos mais importantes que Bolívia teve em sua história. Existia uma espécie de ressentimento guardado que na primeira oportunidade teve a força para renascer. Depois fizeram o que fizeram com o país. 

E sobre o caráter fortemente religioso do golpe, o que o senhor tem a dizer?

Se há de reconhecer que existiu a manipulação e a utilização da religião para influenciar a população. Camacho e outros atores políticos evangélicos que surgiram no país são uma mostra que a religião está entrando claramente na política. 

Uma saída efetiva é ir pela via eleitoral, afirmou Pary (Foto: Haroldo Ceravolo Sereza)

Por que o México acolheu vocês? O senhor viajou com Evo de Cochabamba para o México?

Não, não viajei com ele. Viajei por outras rotas. Esse foi um momento de urgência, e o país que tinha mais condições, o país que tinha mais instrumento para transladar o presidente Morales era o México. Nós somos muito agradecidos ao México.

Qual é o seu trabalho, de Evo e de Linera para a reconstrução democrática na Bolívia? Como vocês articulam isso?

Nós estamos trabalhando em três linhas centrais. A primeira é que não podemos deixar de denunciar que ocorreu um rompimento da ordem constitucional na Bolívia. Segundo, é importante convocar a pacificação no país. A Bolívia não pode seguir se enfrentando. A Bolívia não pode seguir vivendo aos pés dos fuzis das Forças Armadas. É um país que teve grandes conquistas na última década e essas conquistas devem ser mantidas, porque toda a crise que começou nesse último mês vai afetar fortemente a economia boliviana e eu acredito que isso não convém a ninguém no país, isso prejudica os grandes avanços que tivemos. E terceiro, queremos reestruturar nossa força política. Somos a maior força política neste momento no país e acredito que a vigência, o fortalecimento da maior força política é importante e estamos trabalhando e nos articulando para isso com nosso movimentos sociais.

E o senhor fala com partidos, com outros ministros de outros países? Qual é o seu papel nessa articulação?

O que estamos fazendo é informar os movimentos sociais, os partidos políticos, as autoridades dos governos sobre a crise política que a Bolívia sofreu, sobre o rompimento da ordem constitucional e fundamentalmente convocando-os para que nos acompanhem para que o próximo processo eleitoral possa ser o mais transparente e o mais justo possível para todas as forças políticas. 

O senhor esteve com o ex-presidente Lula?

Sim, estive com o presidente Lula e com outros atores políticos do Brasil.

Como quem? 

Com vários atores políticos do Brasil.

No encontro com Lula e com outros políticos conversaram sobre o que?

Falamos principalmente do acompanhamento de todo esse processo eleitoral que está sendo elaborado na Bolívia. É importante que seja garantido que os partidos que vão participar dessas eleições tenham as mesmas condições, que não existam restrições. Mas, além disso, os atores políticos, os candidatos e os líderes sindicais tenham a proteção do Estado, tenham a proteção da comunidade internacional, para que possam exercer seus direitos políticos e civis. 

Hoje, na América Latina, temos um quadro político diversificado com instabilidade no Equador, Chile, mudança de governo na Argentina, Uruguai. Como o senhor analisa essa situação? E para que lado vai a Bolívia?

Veja, a Bolívia teve uma importante liderança no crescimento econômico e na geração de igualdade entre todos os atores, tinha um impressionante desenvolvimento social. Esses dois meses de crise nos afetaram muito. No entanto, somos um país que renasce da força, sempre soubemos levantar e caminhar e esperamos que, a partir das novas eleições, a Bolívia possa voltar a liderar diferentes processos. Sabemos que o continente latino-americano e o Caribe não está no seu melhor momento. Tivemos dificuldades com a Unasul, tivemos dificuldades com a Celac. Temos que seguir trabalhando para que, de alguma maneira, possamos buscar uma melhor integração e um melhor comprometimento entre nossos países.

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