Sábado, 6 de dezembro de 2025
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O veto do presidente da República Dominicana, Danilo Medina, ao novo Código Penal que mantém a criminalização do aborto em todos os casos abriu novamente o debate sobre o tema no país, que registra um dos maiores índices de morte de mulheres relacionadas com a gravidez e o parto na região.

A decisão adotada por Medina na segunda-feira (19/12) é igual à que tomou em 2014, quando o Congresso Nacional (bicameral), controlado pelo governante Partido da Libertação Dominicana (PLD), aprovou um texto similar que penalizava o aborto.

Em carta enviada ontem ao Congresso Nacional, o presidente pediu aos legisladores que reconsiderem o tema e autorizem que o aborto seja realizado em determinadas circunstâncias.

De acordo com as exceções propostas por Medina, a mãe poderá abortar quando a gravidez for resultado de estupro, sequestro ou incesto, que a interrupção seja feita dentro das primeiras 12 semanas de gestação, e sempre e quando o fato tiver sido denunciado ou se for comprovado que a vítima foi impossibilitada de fazê-lo.

O procedimento também será autorizado quando houver má-formação congênita do feto, com certidão médica prévia, se a vida do recém-nascido for considerada inviável, e quando se esgotarem todos os meios “científicos e técnicos” disponíveis para salvar ambas as vidas, “até onde for possível”.

Agência Efe

Manifestação em Santo Domingo, capital da República Dominicana, em prol da legalização do aborto no país (18/12)

A decisão de Medina, vista como “valente” por organizações que defendem os direitos das mulheres, provocou uma avalanche de reações, a favor e contra, evidenciando a divisão que o assunto gera no país.

O presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), Manuel María Mercedes, elogiou o veto presidencial que, segundo sua opinião, “envia uma mensagem clara ao Congresso Nacional, que deve reconsiderar sua posição sobre o tema do aborto e receber as sugestões do presidente Medina”.

Em declarações à Agência Efe, Mercedes lamentou que mulheres continuem a morrer no país por causa de abortos clandestinos, o que poderia ser evitado se existisse uma lei que regulamentasse o procedimento.

Além disso, pediu ao Senado que não repita o mesmo trâmite de 2014, quando as observações de Medina não passaram pela Câmara dos Deputados, o que fez com que a lei fosse declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional, devolvendo a pauta ao Senado, que na semana passada voltou a penalizar o aborto.

A lei, que está há anos no Congresso Nacional, deverá voltar ao Senado, que decidirá se levará em consideração ou não as observações de Medina.
 

Em carta ao Congresso, Danilo Medina pediu que legisladores legalizem aborto em determinadas circunstâncias; decisão do presidente atende 'à saúde, à dignidade, aos direitos e à integridade das mulheres', diz ativista

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A vice-presidente dominicana, Margarita Cedeño, afirmou em artigo publicado nesta terça-feira (20/12) pelo jornal Listín Diario que “é evidente” que o tema do aborto “merece ser levado à mesa de debate, onde todos os setores nacionais possam ser escutados, de maneira que a decisão final seja o resultado da análise profunda da realidade social que o país vive”.

Mercedes disse que se o debate continuar, o Poder Executivo “deve considerar submeter essa importante decisão à vontade popular”, como o estabelece o artigo 210 da Constituição, que contempla as consultas populares.

Representantes das igrejas reprovaram a iniciativa do governante e o presidente do Conselho Dominicano de Unidade Evangélica (Codue), Fidel Lorenzo, chamou Medina de “abortista”.

“Acredito que, sem dúvidas, temos um presidente abortista no Palácio. Ele insiste que a Constituição seja violada”, escreveu Lorenzo no Twitter.

O coordenador da Pastoral Juvenil, o sacerdote Luis Rosario, disse lamentar a postura de Medina, e afirmou que “deste governo é possível esperar qualquer coisa em matéria de respeito à vida e em relação ao casamento e à família”.

Sergia Galván, do Coletivo Mulher e Saúde, destacou a decisão do presidente Medina de vetar o código penal, “atendendo à saúde, à dignidade, aos direitos e à integridade das mulheres”.

“Obrigar uma mulher a manter uma gravidez forçada produto do crime de estupro é cruel, desumano e um desprezo às mulheres”, acrescentou.

A República Dominicana é um dos países da região com maiores índices de morte de mulheres relacionadas a gravidez, parto e puerpério, com 106 mortes a cada 100 mil nascimentos, enquanto a média da região é de 77, segundo dados do relatório de acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O país também é um entre os sete em todo o mundo que criminalizam o aborto em qualquer circunstância, de acordo com a organização internacional Oxfam.