O poder de Murdoch

Como Conservadores e Trabalhistas foram coniventes com crimes do magnata

Chris Marsden | WSWS


Murdoch exercia tanta influência no governo inglês que ficou conhecido como o "24º membro do Gabinete"

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A revelação de que milhares de celulares e computadores foram sistematicamente “hackeados” pelos funcionários do periódico britânico News of the World, de Rupert Murdoch, acendeu um sinal luminoso sobre a criminalidade descontrolada da elite política e corporativa no Reino Unido e ao redor do mundo. Pelo menos sete mil pessoas tiveram seus telefones grampeados e sua privacidade violada. Na caçada por informações pessoais, os mais diversos alvos estiveram sob a mira: desde políticos e membros da realeza britânica, até famílias de vítimas de assassinatos e soldados mortos no Afeganistão.

O escândalo revelou a mais profunda decadência da democracia e das instituições inglesas, entre as quais estão os principais partidos políticos, o Parlamento, o Poder Judiciário e a mídia. Embora frequentemente panflete a necessidade de se instaurar “a lei e a ordem”, o mais poderoso conglomerado midiático da Inglaterra comandou uma série de graves violações à legislação — a exemplo dos grampos telefônicos instalados “em escala industrial”, como descreveu um membro do parlamento inglês. E isso foi feito, ano após ano, com a chancela da impunidade.

Os executivos e os repórteres de Rupert Murdoch acabaram se notabilizando por constantemente ameaçar e intimidar políticos, bem como a outras personalidades que criticam as operações da News International ou invocam a ira da família Murdoch. Atualmente, relatos indicam que um funcionário do periódico News of the World deliberadamente apagou milhões de e-mails potencialmente incriminatórios, com o objetivo de melar futuras investigações.

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Relações íntimas

Ambos os maiores partidos ingleses, Conservador e Trabalhista, têm responsabilidade nesses crimes. E não só pela recusa em cobrar explicações da News International — empresa que controla todos os veículos de imprensa de Murdoch —, mas também por suas íntimas relações com seu império midiático.

A Polícia Metropolitana de Londres sequer foi questionada por ter aceitado passivamente o argumento absurdo de que os atos ilegais foram praticados isoladamente por um repórter mau-caráter e um detetive particular — muito embora isso tenha trazido à tona as dezenas de milhares de libras em propina que alguns agentes policiais receberam do jornal News of the World.

Foi preciso que o escândalo atingisse o universo das celebridades para que alguma atitude fosse tomada. Somente em janeiro de 2011, após inúmeros casos serem revelados, a Procuradoria-Geral anunciou que iria rever o material mantido pela polícia para “avaliar se um novo julgamento criminal era possível”.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi forçado a reconhecer oficialmente o conluio com a imprensa de Murdoch. “A verdade é que nós estivemos juntos nessa. A mídia, os políticos, os líderes partidários. E, sim, eu também participei”, afirmou, à época. Mas Cameron acrescentou: “Durante o último governo, esteve em curso um inquérito policial. Ele foi inadequado, e não foi suficiente. O investigador responsável produziu relatórios, mas todos foram ignorados. As investigações sobre grampos telefônicos não foram levadas adiante. Em meio a todo processo, cheio de avisos e preocupações, nada foi feito pelo governo da época. E, francamente, nada fez a oposição”.

Com esse mea culpa, Cameron tentou diminuir o estrago que o escândalo pudesse causar ao seu governo. A declaração veio na mesma manhã da prisão do ex-editor do News of the World, Andy Coulson, que também foi chefe de comunicação do primeiro-ministro até janeiro do ano passado, quando foi forçado a renunciar ao cargo. Contudo, nem a confissão de Cameron, nem as suas ásperas críticas ao governo trabalhista anterior foram suficientes para fazer justiça ao tamanho das relações incestuosas e duradouras entre o império de Murdoch e a elite política da Inglaterra.

O próprio Rupert Murdoch é amplamente reconhecido como o homem mais poderoso da Grã-Bretanha, e um dos mais poderosos do planeta. Ele representa o arquétipo de uma oligarquia global que conquistou poder à custa de parasitismo financeiro e de um aprofundamento da desigualdade social nunca antes presenciado.

A estreita camada dos ultrarricos, à qual Murdoch pertence, ditou os rumos da vida política, econômica e social por mais de três décadas. Os seus cerca de 175 jornais e canais de televisão — incluindo o inglês Sky e a americana Fox — são largamente vistos como altamente influentes no cenário político. Murdoch é o soberano provedor de um tipo particular de jornalismo sensacionalista, cuja ênfase em escândalos sexuais e em frivolidades dos ricos e famosos tem o objetivo de entreter e confundir o público, encorajando-o aos mais retrógrados sentimentos.

Tradução por Felipe Amorim

* Texto publicado originalmente no World Socialist Web Site

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