Os poetas não podem mais morrer

Marcos Vinicius, a tua morte provou pra gente um negócio que a gente como professor já desconfiava faz tempo: nos iludimos achando ser o uniforme escolar um escudo

Paloma Franca Amorim

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No período em que estava tirando minha licenciatura na faculdade caí na aula de um professor, desses tipos autocentrados que tudo baseiam no pensamento niilista, nos fundamentos da morte e da destruição, na performance da arrogância como ferramenta política e pedagógica, desses tipos uspianos, puquianos, coimbrões, desses tipos misóginos que constrangem as pessoas com seus comentários irreversivelmente machistas e transfóbicos. Pois bem. Esse professor, desse tipo, falou que a Hannah Arendt era uma espécie ridícula de Papai Noel da educação por ter um discurso associado à ideia de amor ao mundo como um impulsionador dos processos de transformação social, política e pedagógica. Toda classe achou graça, aqueles lambe-botas. 

Eu tinha estudado a Hannah Arendt um semestre antes no curso de filosofia da educação, tava apaixonada por ela. Hoje já não sou mais tão apaixonada, mas não largo essa visão amorosa pelos terrenos do humano que ela me apresentou. Por isso não abro mão do meu trabalho como professora, apesar de achar que o samba e a literatura parecem mais charmosos como ofício de vida e soam um tanto mais coerentes com minha forma cigarra de vivê-la.

Mas eu sou professora. Porque desejo também educar meninos e meninas que queiram ser médicos, astronautas, cientistas, colecionadores profissionais, cartógrafos, advogados, malabaristas. Sambistas. Sambistas também. Samba também é profissão.

Poetas todos são.

A meu ver, toda criança é poeta de nascença.

E pensar nisso me faz sentir um alento que cura todas as dificuldades que condicionam o que é ser professor em um país como o Brasil.

Esse país que não enxerga a si mesmo e que por conta da grana e do poder destrói a poesia e cria monstruosidades, homens sem vigor ético e moral, os donos da bola. Esses homens que jamais educaremos, não por incompetência, mas porque nos recusamos.

Homens que ocupam arquibancadas em jogos da Copa. Todos brancos, ricos, afivelados em uma antipatia, apatia (a distância do pathos, da intensidade, da paixão, das pulsões transformadoras de nós e dos outros), humilhando mulheres estrangeiras aos gritos e sorrisos irônicos. Agem na Rússia que sedia o show esportivo do futebol mundial como costumam agir em seus lares, em seus trabalhos, nas praças públicas, espezinhando as empregadas domésticas, os porteiros, seus subalternos, as gentes das ruas. Falando que bandido bom é bandido morto, que direitos humanos são para humanos direitos, que a vida é uma questão de escolha e esse papo de oportunidade e direitos garantidos é mimimi.

Reprodução
Fernando Frazão/Agência Brasil

Não. Não é deles que eu quero falar. Cessam as palavras que vou macular para narrar essas anti-humanidades.

Marcos Vinicius, é de ti que eu quero falar.

Ou tentar falar contigo pela única maneira que eu encontrei pra conversar com os mortos ao longo de minhas buscas pessoais, alquímicas, aritméticas. Pelas palavras eu pude conversar com minha mãe, com a Lucinha, com a Faena, com o Luiz Octávio, até com a minha avó, Vinícius, até com a minha avó que eu não amava (mas precisava danadamente tentar).

De ti eu só sei que te mataram com uma bala na barriga, na Maré, e a tua reação foi se perguntar se o teu algoz, blindado pelo Estado, não havia notado o uniforme escolar.

E aí, Marcos Vinicius, a tua morte provou pra gente um negócio que a gente como professor já desconfiava faz tempo: nós tanto acreditamos na educação, seguindo uma gramática quase absurda de tão romântica, que nos iludimos achando ser o uniforme escolar um escudo que protegia nossos meninos e meninas desse genocídio.

Não, não importa o uniforme escolar, o diploma universitário, o registro geral em um porta-documento. Não importa. Nunca importou. Dentro ou fora das escolas, dentro ou fora das universidades, o povo negro e pobre continuará sendo perseguido e eliminado.  Esse é o código de ética do Estado.

A educação emancipa quando feita com amor (vai, não é mais o amor da Arendt, acho que em mim agora é o amor de Xangô que me move como professora), mas de nada serve se os corpos dos aprendentes, seus pais, primos, irmãos, não forem respeitados politicamente como vidas que, sim, importam.  

Só penso nesse momento de luto e luta, Marcos Vinicius, na tua mãe, na tua família, nos teus amigos. Só penso na Maria Eduarda morta no ano passado e em todos a juventude arrancada da raiz do futuro diante de nossos impassíveis olhos.

Penso na Hannah Arendt dizendo que educar é apresentar o mundo para alguém que chegou depois da gente. E te arrancaram do mundo como se nada fosses, Marcos Vinicius. Os poetas não podem mais morrer. Lua vermelha. A polícia tem que parar de matar a nossa gente. 

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