Turismo cai e Londres ganha apelido de "cidade-fantasma"

A capital britânica recebeu até agora 100 mil turistas, muito abaixo dos 300 mil que normalmente chegam para o verão

Roberto Almeida

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São 19h em Londres e o ônibus é o 243, que passa próximo da London School of Economics e de uma das sedes da BBC, em Aldwych, no centro da cidade, vai até Dalston, na zona leste, distrito próximo à área da Olimpíada. Antes sempre lotado, ele passa tranquilo pelas avenidas até chegar a Clerkenwell Road e Old Street, algumas das principais vias rumo ao Parque Olímpico. Não há congestionamentos, ao contrário do que se esperava e tanto se alardeou.

[O chique hotel Claridge's, perto de Oxford Street, não teve sua capacidade máxima preenchida com as Olimpíadas]

Derrubando todas as previsões de superlotação, a Londres durante a Olimpíada flui como se estivesse em férias ou em uma ressaca de manhã de sábado. As ruas estão muito calmas. Metrôs e trens também. A mensagem do prefeito Boris Johnson no alto-falante ganha contornos de piada, no melhor estilo do humor britânico. Alguns passageiros, de fato, riram com gosto das palavras preocupadas.

Os sinais são tão claros de que a Olimpíada diminuiu o ritmo da cidade que ontem (31/07) o jornal Financial Times chamou, em reportagem de capa, a capital britânica de cidade-fantasma. Baseado em números da Avla (Association of Vistor Leading Attractions), que concentra os principais parques, museus e atrações, o jornal informa que houve uma queda brusca no número de visitantes nas duas últimas semanas. Importante ressaltar: os museus de Londres são gratuitos. Não há desculpas para não ir.

Segundo o jornal, a capital britânica recebeu até agora 100 mil turistas para a Olimpíada, muito abaixo dos 300 mil que normalmente chegam à cidade para o verão. Estações de metrô que supostamente estariam atoladas de pessoas, como London Bridge, a quatro paradas do Parque Olímpico, estão abaixo do movimento normal.  O Borough Market, o maior mercado de rua da capital, sempre fervilhando, estava estranhamente às moscas ontem à tarde. A Tate Modern, o maior museu de arte contemporânea da cidade, também.

O diretor executivo da Associação de Operadores de Tours Europeus, Tom Jenkins, disse que há uma “combinação fatal” de aumento de tarifas e baixa de demanda. De acordo com a associação, o resultado do turismo em Londres para 2012 deve ser 50% abaixo do esperado.

Ao mesmo tempo que comerciantes lamentam a falta de público, especialmente para os espetáculos de teatro sempre lotados do West End, analistas voltam a criticar a lógica dos “benefícios” que uma Olimpíada pode trazer para uma cidade. Desde a Olimpíada de Barcelona, em 1992, o argumento é o mesmo. Dessa vez, o balanço final ainda está longe de ser concluído. Há ainda mais uma semana e meia de jogos, mas os primeiros sinais são desanimadores.

O torcedor que não estava lá

Ainda há ingressos para os jogos – alguns caríssimos, é verdade, superando as mil libras esterlinas (mais de R$ 3 mil). Mas só há lugares à venda porque a população britânica se revoltou ao ver pela TV que algumas arenas estavam excepcionalmente vazias, colocando em xeque a atuação do comitê olímpico local. Com quem estavam esses ingressos, afinal, e por que as pessoas não foram?

Os primeiros passos de uma investigação, exaltada pelo presidente do comitê, Lord Sebastian Coe, do Partido Conservador, mostraram que essas entradas estariam nas mãos de patrocinadores e vips que não ligaram para as eliminatórias do judô, da ginástica olímpica e outros esportes menos concorridos. O mesmo corporativismo que proibiu camisetas da concorrência, como Pepsi – e até mesmo de Che Guevara – mostrou que a Olimpíada, um suposto símbolo de união global, está longe de ser para todos.

Fato é que desde a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, com a pirotecnia de Danny Boyle sobre a história industrial do país (a colonial, claro, foi deixada de lado), os ânimos estão acirrados entre o conservadorismo britânico e setores mais progressistas do espectro político local. O embate cresce à medida que Boris Johnson é cada vez mais cotado para suceder o premiê David Cameron, enquanto os trabalhistas buscam detonar a coalizão que sustenta o governo conservador.

Aliados de Cameron, por exemplo, classificaram o show de abertura como “pura propaganda esquerdista”, e se esforçam em mostrar como tudo na cidade está funcionando bem, apesar dos jogos, enquanto a oposição tenta apresentar como “benefícios” são poucos e cada vez mais raros. Nessa guerra de versões, uma coisa é certa. Londres, por enquanto, é mesmo uma cidade-fantasma.

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