Bolsistas protestam em Paris: cortes na educação 'são ideológicos, não econômicos'

Manifestações começaram em frente à Cité Universitaire, centro de residências universitárias para estudantes estrangeiros que vêm realizar pesquisas em instituições francesas

Lúcia Müzell

Paris (França)

RFI RFI

Estudantes, pesquisadores e professores brasileiros organizaram um protesto em Paris, em solidariedade à greve que acontece em 26 universidades brasileiras nesta quarta-feira (15/05). Cerca de 40 pessoas participaram da manifestação, com cartazes coloridos que traziam frases de oposição aos cortes de verbas na educação.

O governo anunciou a redução de 30% dos recursos previstos para investimentos e custeio corrente das universidades, até setembro. As novas bolsas de pesquisa da Capes (Coordenação de Pessoal de Nível Superior) também foram suspensas. Nesta quarta-feira, o ministro da Educação deve comparecer à uma convocação da Câmara dos Deputados para dar os detalhes sobre os cortes.

Em Paris, o protesto aconteceu em frente à Cité Universitaire, centro de residências universitárias para estudantes estrangeiros que vêm realizar pesquisas em instituições francesas. Por enquanto, os manifestantes não são diretamente afetados pelas medidas, mas demonstraram preocupação com o futuro das bolsas de pesquisa no exterior.

A maioria deles faz doutorado na França, em áreas de ciências humanas, como filosofia. Os estudantes alegaram que, sem financiamento, não conseguiriam estar na Europa.

Denúncia de uma educação para a elite

“A educação precisa continuar para salvar o Brasil. O presidente quer cortar a educação dos pobres e fazer uma educação só para a elite”, alegou Lívia da Silva Ferreira, 33 anos, que está no quarto ano de doutorado em Direito Público na Universidade de Paris 10 (Nanterre). “Eu não sou da elite, sou da Baixada Fluminense e de família humilde, e hoje estou morando em Paris porque estudei e me esforcei, mas também porque tive oportunidades.”

A pesquisadora Amanda Paula Fernandes, chegou a se emocionar ao lembrar da sua trajetória em escolas e universidades públicas. “Eu choro porque tudo que está acontecendo é para que todos que não conseguem chegar à universidade continuarem à margem da sociedade. Minha mãe é empregada doméstica e o meu pai trabalha no transporte público”, contou. “Fui a primeira da minha família a conseguir chegar à universidade”, indicou Amanda, que concluiu um doutorado em epidemiologia.

Cortes em todos os níveis educacionais

Fernanda Coelho, 32 anos, avalia que os cortes promovidos pelo governo “são ideológicos, não econômicos”. No total, R$ 7,4 bilhões do orçamento do MEC foram bloqueados. “É uma questão social mais ampla porque todos nós voltaremos para o Brasil um dia, e os cortes estão atingindo todos os níveis da educação, da básica à superior. A longo prazo, isso pode causar um dano social muito grande para todo o país”, afirmou a pesquisadora em educação, que realiza estágio doutoral na conceituada Écoles des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), em Paris.

O professor de literatura brasileira Leonardo Tonus, que dá aulas há 20 anos em Paris e é livre docente da Universidade Sorbonne, nota que a França é o país com o qual o Brasil tem mais acordos de pesquisa e educação superior. A redução do orçamento da pasta impacta na reputação do país no exterior, avalia.

“Isso afeta diretamente a imagem do Brasil dentro das instituições parceiras. Antigamente, nós éramos parceiros privilegiados dentro das instituições, e isso fez com que algumas universidades se afastassem um pouco do Brasil e se aproximarem de outros países onde há uma maior estabilidade economia e política”, constata Tonus.

Os manifestantes prometeram continuar mobilizados e podem realizar novos protestos, de acordo com a evolução do tema no Brasil.

Assista fala do ministro da Educação fala à Câmara dos Deputados: 


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Protesto aconteceu em frente à Cité Universitaire, centro de residências universitárias para estudantes estrangeiros

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