Rachel Dolezal, pioneira ativista transracial?

Talvez o furor sobre a autodeterminação de Rachel Dolezal como uma pessoa negra também esteja relacionado a uma crescente consciência de que categorias raciais, que já foram verdades incontestáveis, estão se tornando obsoletas

J Brooks Spector | Daily Maverick

Rachel Dolezal, para quem ainda não sabe da história, é uma mulher norte-americana que se tornou representante da NAACP (sigla em inglês para Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor, em tradução literal) na cidade de Spokane, no estado de Washington. Lá ela tinha sido aceita como mais uma mulher negra de pele clara com interesse em arte e justiça social. A trajetória de Dolezal, porém, era muito mais complexa do que isso.

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A advogada Rachel Dolezal, pivô de polêmica nos EUA sobre raça e protagonismo em movimentos sociaisNa realidade, seus pais rastrearam sua ascendência ao norte da Europa (com um pouco de sangue indígena norte-americano para apimentar o caldo). De acordo com as informações disponíveis na imprensa, a família de Dolezal era formada por fundamentalistas cristãos do campo, e seus pais têm dois filhos negros adotados, além dos filhos biológicos. Enquanto estava na universidade, Dolezal se casou com um homem negro, deu à luz uma criança “birracial” e, depois do divórcio, passou a criar um de seus irmãos adotados.

Recentemente, ela falou a repórteres e ao público que ela se sente uma pessoa negra desde que tinha 5 anos de idade (evadindo perguntas mais específicas sobre se ela é de fato afro-americana). Entretanto, descobriu-se que durante sua graduação na Universidade Howard – uma das mais celebradas universidades norte-americanas pela maioria negra entre estudantes e professores – ela processou a instituição alegando ter sido discriminada em sua carreira acadêmica por ser branca. Ela perdeu o processo.

Ao voltar para a região oeste dos EUA, Dolezal, ao que tudo indica, começou a transformar sua aparência e eventualmente se tornou a representante da NAACP em Spokane. Ela passou a atuar no governo local, no avanço de direitos civis e em conselhos administrativos em sua comunidade como uma pessoa negra. (Curiosamente, uma rápida consulta à história da NAACP mostra que a organização foi sacudida de sua tradição cordial e levada a praticar um vigoroso ativismo por direitos civis pelas mãos de Walter White, presidente da associação entre 1931 e 1955, que era apenas 5/32 negro – assim era entendida a herança racial nos EUA. Assim como Dolezal, White tinha cabelos loiros e olhos azuis.)

Na última semana, porém, a herança genética de Dolezal foi “exposta” por seus pais, com quem ela teve um sério desentendimento ao longo dos anos. Como resultado, o debate agora gira em torno das considerações sobre quão concretas as categorizações raciais são de fato, sobre o quanto estão baseadas em aspectos biológicos ou sobre a possibilidade da identidade racial ser produto do sentimento e do desejo de alguém. Para algumas pessoas, o ocorrido coloca a categorização racial em par com o gênero, acendendo o debate sobre se Rachel Dolezal e Caitlyn Jenner deveriam então ser vistas como equivalentes.

Pessoas sul-africanas também têm o que acrescentar a essa discussão. A própria natureza da categorização racial na África do Sul sempre dependeu de um modelo obsoleto baseado na imutabilidade da raça, apesar do consenso científico de que a única “raça” de fato é a raça humana e que a variação genética dentre as “raças” tradicionalmente aceitas é muito mais abrangente do que traços óbvios como a cor da pele e a textura do cabelo, geralmente utilizados para diferenciar entre as “raças” de homo sapiens. O próprio termo “raça” tem sentidos diferentes em diferentes momentos da História. Até as primeiras décadas do século 20 era comum falar nas louváveis características das raças teutônicas (originárias da região onde hoje é a Alemanha) versus as menos louváveis características das raças latinas ou eslavas, além dos ainda mais hostis predicados das raças asiáticas, africanas e europeias.

As categorias raciais sul-africanas eram tão bizarras que havia um processo legal e formal a que qualquer pessoa podia aplicar para obter uma reclassificação racial – e portanto ter acesso a diferentes oportunidades estabelecidas legalmente para pessoas de diferentes raças. Essas classificações e reclassificações traziam muitas consequências para as pessoas envolvidas. “Subir um degrau” na escala racial trazia benefícios reais. Quando os mecanismos classificatórios foram formalizados após 1948, muitas pessoas tentaram se fazer passar por outras raças, tanto “branco” como “pessoa de cor”.

Este fenômeno é similar às circunstâncias nos EUA, embora os limites legais no país fossem menos estritamente estabelecidos. O romance “A marca humana”, do escritor norte-americano Philip Roth, e o filme feito a partir dele em 2003, mostram a dor que tais decisões traziam às pessoas envolvidas. Histórias reais e ficcionais trataram com muita angústia da natureza do que acabava sendo uma “linha de cor” bastante flexível.

As circunstâncias de Dolezal e suas revelações (ou humilhações) públicas lhe custaram seu emprego, seu posto na NAACP e seu envolvimento com estruturas governamentais. A vida dela nunca mais será a mesma. Mas ela trouxe à tona a questão sobre o quão fixo pode ser um rótulo racial. Esta é, certamente, parte de uma transformação social nos Estados Unidos, já que cada vez mais pessoas possuem variadas heranças raciais que não mais cabem nessas categorias fixas.

Após anos de lobby por esta mudança, o Escritório Censitário dos EUA hoje afirma: “As categorias raciais presentes nos questionários censitários refletem definições sociais de raça reconhecidas neste país e não são uma tentativa de definir raça biologicamente, antropologicamente ou geneticamente. Além disso, é sabido que as categorias disponíveis sob o item ‘raça’ incluem origens raciais e nacionais e grupos socioculturais. É possível marcar mais de uma raça para indicar sua complexidade racial, como ‘Indígena Norte-Americano’ e ‘Branco’. Pessoas que identificam sua origem como hispânica, latina ou espanhola podem ser de qualquer raça.” As normas do Censo norte-americano explicam também que “a resposta de um indivíduo à questão sobre raça se baseia em auto-identificação.”

Estatísticas raciais são consideradas em muitas decisões governamentais, inclusive no envio de benefícios a distritos escolares, que em geral, nos EUA, é maior em distritos com maior proporção de minorias raciais. Mas os agentes do Censo no país não realizam “testes do lápis” como faziam os órgãos de classificação racial na África do Sul – no teste, um lápis era colocado em meio aos cabelos da pessoa, e a facilidade ou dificuldade com que o lápis era retirado determinava o pertencimento racial dessa pessoa, assim como as circunstâncias a que ela estaria sujeita para o resto de sua vida.

Talvez o furor sobre a autodeterminação de Rachel Dolezal como uma pessoa negra também esteja relacionado a uma crescente consciência de que categorias raciais, que já foram verdades incontestáveis, estão se tornando obsoletas. E talvez a mais improvável defesa de Dolezal tenha vindo do ídolo do basquete norte-americano Kareem Abdul-Jabbar. Em um artigo para a revista Time, após argumentar que raça é uma construção social, o ex-atleta concluiu: “Não se pode negar que Dolezal provou ser uma aguerrida lutadora em prol das pessoas afro-americanas. Talvez essa sensibilidade lhe tenha sido incutida a partir da vivência com seus irmãos negros. Qualquer que seja a razão, ela tem se engajado na nossa causa há anos, e aparentemente tem feito um ótimo trabalho. Ela não apenas era a representante do NAACP em sua cidade, como dava aulas de cultura afro-americana na universidade e era presidente de um comitê que monitora a atividade policial em sua cidade. Em resumo, a comunidade negra está vivendo melhor também graças aos esforços dela. Dolezal simplesmente escolheu sua preferência cultural junto ao grupo com que ela mais se identifica. Quem pode culpá-la?”

 

Artigo original publicado no site de notícias sul-africano Daily Maverick.

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