Destruir a Cracolândia é ruim para os usuários - e para quem tem medo deles

Cracolândia não é o Shopping JK Iguatemi, onde a elite se esconde para consumir o que acredita ser seu direito pela desigualdade perversa do país: é uma rua, sem teto ou proteção, com câmeras de vigilância dia e noite

O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que vai “destruir” os hotéis sociais da Cracolândia. O verbo foi esse: “destruir”. Descreveu o lugar como um shopping center de drogas. Para a ação de destruição, em conjunção com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), mandou helicópteros e policiais armados. Fez do lugar uma cena de conflito em que pessoas foram presas e hotéis fechados. 


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A ação teve início na madrugada do domingo, dia 21 de maio. Na véspera, um grupo de habitantes da Cracolândia e de gente comum foi à Defensoria Pública do Estado de São Paulo assistir à primeira exibição do documentário Hotel Laide. O filme mostra a primeira noite de Angélica em um dos hotéis já destruídos – o Hotel Laide, um dos mais importantes da região. 

Angélica era menina quando foi viver na rua. Dos 7 aos 23 anos experimentou o que, ingenuamente, o prefeito Doria considera a solução para a questão do crack: internação compulsória ou presídio.

Entre idas e vindas, terminou na rua. Por vontade própria, pediu para fazer parte do programa Braços Abertos, outra iniciativa também destruída pelo prefeito. Foi no Hotel Laide que dormiu a primeira noite em uma cama, com direito a banheiro e roupa nova. Entre a entrada no hotel e o banho, escondeu o cachimbo, uma delicadeza de gesto para o sentido da política de redução de danos. 

Redução de danos não é passe de mágica, é cuidado com paciência de quem há muito tempo o Estado esqueceu. Angélica era menina quando perambulava pelas ruas, quando a escola não estranhou que ela não mais frequentava as aulas, quando ninguém se espantou que uma menininha vivia por aí “em busca de aventuras”. Redução de danos é mover-se junto com Angélica e a multidão da Cracolândia para devolver o que foi tirado – uma cama para dormir, um banheiro para a vida diária ou a tranquilidade de não sentir frio na rua. 

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Destruir a Cracolândia é ruim para os usuários, mas igualmente ruim para os que temem os “zumbis”

Angélica está sem lugar novamente. O Hotel Laide foi queimado, foi dos primeiros hotéis destruídos, só não se sabe por quem. Entre a chegada de Angélica e a destruição do hotel, o filme mostrou sua vida um ano depois da primeira noite. Ela era outra mulher – mais viva, a pele brilhava, havia esperança. Descrevia o programa Braços Abertos como uma oportunidade de não mais se prostituir, de não mais roubar, de não mais viver na rua. Ela trabalhava e se mantinha na rotina diária da assistência social.

A Cracolândia não é o Shopping JK Iguatemi, onde a elite se esconde para consumir o que acredita ser seu direito pela desigualdade perversa do país. É uma rua, sem teto ou proteção, com câmeras de vigilância dia e noite.

Minha primeira entrada no fluxo da Cracolândia foi filmada pela Guarda Municipal de São Paulo – minha figura era suspeita para quem sempre vigiou aquele espaço. Eu não me parecia aos “zumbis”, como são descritos os usuários da pedra, talvez fosse uma nova traficante. Nunca houve segredo que a droga ali circulava, e esse é o sentido da “cena de uso”: os usuários ficam em um mesmo espaço, vigiado pela polícia, porém cuidado pela saúde e pela assistência social. 

Destruir a Cracolândia é ruim para os usuários, mas igualmente ruim para os que temem os “zumbis”. Dispersos da vigilância do Estado, eles não ficarão amontoados nos hotéis sociais ou no fluxo, mas na porta das elites, na entrada dos verdadeiros shoppings centers. De um problema de saúde pública, os temidos “zumbis” se transformarão em uma fantasia de segurança pública para as elites que sequer entendem como “redução de danos” é, ao mesmo tempo, uma política de saúde e de segurança. 

Não destrua a Cracolândia, prefeito Doria. Se ainda não entendeu o que é “redução de danos”, assista o documentário Hotel Laide. Mas assista hoje ainda: a política de redução de danos não foi inventada por seu antecessor político, mas possui uma longa trajetória de pesquisa médica, recomendada por diversos organismos internacionais.

O hotel não mais existe, mas a memória de Angélica sem o cachimbo mostrará o quanto é singelo cuidar de um usuário de crack. Se Angélica não lhe tocar, assista a cena do anjo, mas procure entendê-la: anjo é toda criança, por isso se escondem os cachimbos para a passagem de crianças pelo fluxo.

A Cracolândia não é território sem lei, é uma cena de uso para a política de redução de danos, vigiada pela polícia dia e noite e assistida pelas políticas sociais. Internar, esconder ou destruir não são práticas humanitárias, mas de medo. Há tempo de ajeitar seus maus-modos: gente não foi feita para ser destruída, mas para ser cuidada. Deixe a Cracolândia em paz. Melhor os “zumbis” juntos e vigiados que na porta dos verdadeiros shopping centers de São Paulo.

Veja o documentário Hotel Laide:

(*) Publicado originalmente em Carta Capital


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