Uma crônica torta para Carolina

Eu gostaria de ter escrito essa crônica de outro jeito, mas o que veio foi essa imagem incomoda, cheia de marcas de distinção: um escritor consagrado, a escritora marginal, as ruas e seus moradores

Ricardo Queiroz

São Paulo (Brasil)

A Barra Funda tem a avenida Mario de Andrade. No limite da avenida do pai de Macunaíma com a General Olímpio da Silveira está a praça Antônio Cândido Camargo.

Seria bom se fosse o de Mello e Souza.

O encontro do mestre com o seguidor. Arranjo perfeito. Poderia ver tudo da janela.

Mas é o Dr. AC Camargo da Medicina, o homenageado.

As elites sempre se acertam.

Mas não estou escrevendo para falar dos arranjos das ruas e das elites. Antes, me interessam, as pessoas que nelas andam.

Nas ruas com nomes de figuras históricas ou não, as pessoas ficam todo o tempo. Algumas mais do que outras e cada vez mais tempo.

A crise está prolongando mais essa estada. E como já disse outras vezes, essas pessoas vão ficando e se tornando vizinhos. Da pra ver tudo da janela.

Existe uma senhora nova na área. Uma moradora das ruas. Já a vi umas quatro vezes. Ela fica justamente ali na Praça AC Camargo, no cume da Mario de Andrade.

Ela é negra, usa lenço na cabeça, anda com umas sacolas e uma bolsa com a bandeira da Inglaterra como estampa.

Hoje fui ao supermercado e a vi de frente, ao atravessar a Mario de Andrade. Ela lembra muito a Carolina de Jesus, nossa vigorosa e seminal escritora. O lenço, as roupas, a ancestralidade. Não sei o seu nome, fixo Carolina.

Na verdade essa alusão me incomoda. São mil carolinas como já li algum dia. Uma frase que encaixa e incomoda. Parece a imagem de uma perpetuação, do congelamento de uma condição precária. De uma Carolina de Jesus que se encontra com Mário de Andrade, sua rua, sua avenida, seu destino.

Eu gostaria de ter escrito essa crônica de outro jeito, mas o que veio foi essa imagem incomoda, cheia de marcas de distinção. Um escritor consagrado, a escritora marginal, as ruas e seus moradores. Como se a vida coubesse num quarteirão há muito congelado.

É segunda-feira, quase nove e meia da noite. Tô na minha janela e a senhora negra que parece a Carolina de Jesus, atravessa a avenida Mario de Andrade, com o passo lento e solitário, o passo de quem tateia as ruas, sua casa provisória. Sem as sandices e citações literárias. Vida bruta e real.

Que essa crônica torta e a foto roubada a aqueça de alguma forma.

Reprodução/Google
'Existe uma senhora nova na área. Uma moradora das ruas. Já a vi umas quatro vezes'

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