A Grécia continua na manhã desta quinta-feira (15/06) as buscas por possíveis sobreviventes do naufrágio de um barco de pesca que levava migrantes no Mar Mediterrâneo. A embarcação estaria carregando mais de 700 pessoas, segundo relatos. Até o momento, 104 sobreviventes foram resgatados nessa tragédia, que já registra ao menos 78 mortos.
Dois barcos de patrulha, um helicóptero e seis outras embarcações continuam a percorrer as águas da costa do Peloponeso, uma das áreas mais profundas do Mediterrâneo, em busca das centenas de desaparecidos.
Setenta e oito corpos foram resgatados até agora no sudoeste da Grécia, conforme a guarda costeira grega.
“Esta pode ser a pior tragédia marítima dos últimos anos na Grécia”, disse a representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Stella Nanou, em entrevista à televisão pública ERT.
Na quarta-feira (14/06), o porta-voz do governo, Ilias Siakantaris, disse haver relatos de que 750 pessoas estariam a bordo do velho barco, uma embarcação de pesca superlotada e em situação precária.
A Grécia declarou três dias de luto após essa tragédia, que ocorre em meio à campanha eleitoral para as eleições gerais de 25 de junho, a segunda em um mês.
Uma imagem de baixa qualidade transmitida pela guarda costeira mostrou uma velha traineira azul superlotada, com dezenas de pessoas amontoadas no convés de proa à popa.
“O barco de pesca tinha de 25 a 30 metros de comprimento. Seu convés estava cheio de pessoas, e presumimos que o interior estava igualmente cheio”, enfatizou Nikolaos Alexiou, porta-voz da guarda costeira na ERT.
Até o momento, 104 pessoas foram resgatadas e levadas ao porto de Kalamata. Entre os sobreviventes, as autoridades gregas dizem que há apenas homens: sírios (47), egípcios (43), além de 12 paquistaneses e dois palestinos. Nenhum usava colete salva-vidas.
No entanto, as testemunhas confirmam que havia mulheres e crianças dentro da embarcação. “Não sabemos o que havia no porão, mas sabemos que vários contrabandistas têm trancado as pessoas lá dentro”, disse o porta-voz do governo.

Twitter/Sea-Watch International
Setenta e oito corpos foram resgatados até agora no sudoeste da Grécia, conforme a guarda costeira grega
Um sobrevivente disse aos médicos do hospital de Kalamata que havia visto cerca de cem crianças no porão do barco, segundo a ERT.
De acordo com as equipes que estão recebendo os sobreviventes, os refugiados estão em estado de choque. Os migrantes estariam há cerca de seis dias no mar em condições insalubres.
O navio de pesca saiu da Líbia em direção da Itália na última sexta-feira (09/06) e coletes salva-vidas não foram distribuídos para que mais pessoas pudessem caber na embarcação, segundo reportagem do jornal Le Monde.
Um navio mercante teria se aproximado para fornecer mantimentos à embarcação de migrantes. A guarda costeira grega teria chegado à noite na mesma região, confirmando a presença de grande número de pessoas a bordo, mas eles teriam expressado “o desejo de seguir a viagem em direção à Itália”, segundo comunicado da Frontex, agência responsável pela vigilância das fronteiras europeias.
No entanto, o jornal francês Libération denuncia versões contraditórias. Segundo o diário, Nawal Soufi, um voluntário que atua no serviço de emergência Alarm Phone, que presta assistência a embarcações de migrantes no Mediterrâneo fornecendo dados de GPS às autoridades, deu uma versão completamente diferente. Seu testemunho, publicado nas redes sociais, relata pedidos de socorro chocantes desde a manhã de terça-feira (13/06).
Segundo Soufi, naquele que era o quarto dia de viagem do navio, as reservas de água haviam se esgotado, seis pessoas já estavam mortas e duas em estado crítico. A situação piorou quando um dos navios mercantes se aproximou e atirou garrafas de água à embarcação de migrantes, provocando um movimento de massa das pessoas a bordo.
Em um dos últimos pedidos de socorro ao Alarm Phone, segundo o relato do voluntário, um dos migrantes informou que o capitão da embarcação havia fugido em um bote inflável, deixando-os à deriva.
“Até quando vamos aceitar que crianças, mulheres e homens morram afogados, tentando, a qualquer preço, fugir da fome, miséria e violência, para se refugiar na Europa?”, questiona o jornal Libération em um editorial enfurecido.
O diário faz um apelo para que as autoridades revisem urgentemente as políticas de acolhimento de refugiados que, segundo o texto, “não convencem as pessoas de vir à Europa, mas as assassinam”.