Sexta-feira, 15 de maio de 2026
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As imagens de uma jovem nigeriana e seu bebê, forçados a sair de um ônibus na Ucrânia para deixar o lugar para outra pessoa, circularam em todo o mundo. Outros incidentes racistas vêm sendo registrados na fronteira com a Polônia, onde guardas de fronteira impedem a entrada de pessoas negras. 

Os tuítes de “Nze”, nigeriano radicado em Kiev, também viralizaram na internet nos últimos dias. O jovem, que passou três dias esperando no frio até conseguir transporte em direção à Polônia, utiliza a plataforma para denunciar as discriminações das quais vêm sendo alvo na empreitada de fugir da Ucrânia.

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“Eles nos insultaram em russo pensando que não os compreendíamos, até que um de nós colocou a câmera na cara deles e disse para que eles repetissem. Aí eles diminuíram os insultos porque se deram conta DE que a maioria de nós têm conhecimentos básicos das línguas russa e ucraniana”, diz um dos posts de “Nze”. 

Segundo o porta-voz da presidência nigeriana, Muhammadu Buhari, um grupo de estudantes do país foi impedido diversas vezes de entrar na Polônia. “Eles não tiveram outra escolha além de atravessar novamente toda a Ucrânia para chegar à fronteira com a Hungria”, diz. 

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Um estudante congolês que mora na Ucrânia conversou com a RFI sob anonimato e contou que esperou um dia inteiro no frio para poder atravessar a fronteira, enquanto pessoas brancas não tiveram a mesma dificuldade. “Agora estou na Polônia, mas não foi fácil chegar aqui. Eu estava já dentro de um trem, quando alguém me segurou e me jogou para fora. Estamos vendo esse tipo de coisa acontecer todos os dias”, diz.

O estudante congolês Eliezer contou à RFI que fez quatro tentativas até conseguir permanecer em um trem em direção à Polônia. “Agentes ucranianos nos tiram de dentro dos trens. Claro que sabemos que a prioridade são as mulheres e as crianças. Mas várias vezes eles deixam homens brancos passarem, enquanto nós somos recusados”, afirma.

Nas redes sociais, multiplicam-se testemunhos de maus-tratos perpetrados por agentes de segurança ucranianos, impedindo africanos de embarcar em trens ou ônibus em direção às fronteiras do país

Serviço de Fronteiras da Ucrânia

Passagem fronteiriça na Ucrânia; africanos relatam racismo ao tentarem atravessar

Repatriamento de 500 marfinenses

Para o governo da Costa do Marfim, o repatriamento de cerca de 500 cidadãos que estavam na Ucrânia também se tornou um quebra-cabeças. O Ministério das Relações Exteriores do país criou uma célula de crise em Abidjan e outra em sua embaixada na Alemanha. No entanto, o embaixador Philippe Mangou resolveu viajar até a fronteira entre a Polônia e a Ucrânia para ajudar nas operações.

Em entrevista à RFI, ele relata a dificuldade dos marfinenses na empreitada. “São situações anormais. A Convenção de Viena diz que quando cidadãos de um país estão em perigo por causa de uma guerra, é necessário acolhê-los. Espero que as autoridades polonesas nos ouçam. Não é possível bloquear as pessoas, é preciso deixá-las circular. Se permitem que os ucranianos atravessem as fronteiras, é necessário deixar os africanos fazerem o mesmo”, diz. 

União Africana denuncia racismo

Em um comunicado, a UA se diz “particularmente preocupada” com os cidadãos impedidos de fugir da guerra. O presidente do Senegal, Macky Sall, que dirige a organização, bem como o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki, lembram que “todas as pessoas podem cruzar as fronteiras durante um conflito e deveriam se beneficiar dos mesmos direitos qualquer que seja a sua nacionalidade ou sua identidade racial”. 

A UA denuncia um “tratamento diferente e inaceitável”, “chocante” e “racista”, que viola o direito internacional. Sall e Faki fazem um apelo para que todos os países pratiquem a empatia e apoiem todas as pessoas que tentam deixar a Ucrânia neste momento, independentemente de suas origens ou cor de pele.

A embaixadora da Polônia na Nigéria, Joanna Tarnawska, rebate as acusações, dizendo que “todos estão recebendo um tratamento igualitário”. Prova disso, segundo ela, é a grande quantidade de cidadãos africanos acolhidos na Polônia nos últimos dias.