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Toc, toc, toc. Um grupo de jovens bate à porta do pub The Hand & Racquet, fechado desde 2007 e localizado a apenas duas quadras de Picadilly Circus, em pleno coração de Londres. Em pouco tempo um garoto aparece e pergunta, desconfiado, se somos jornalistas. Uma jovem loira à minha direita responde que é. “Vá embora, vocês manipulam tudo o que dizemos”, lhe diz o garoto. Decido me calar e entro no edifício com os outros.

É difícil imaginar que esse prédio de três andares caindo aos pedaços, decorado em estilo vitoriano e onde ainda é possível ver o balcão do bar e os cardápios pendurados nas paredes, seja o ponto nevrálgico dos okupas londrinos. Há poucos dias, o local foi ocupado por um grupo chamado Really Free School (Escola realmente livre), formado por mais de 100 pessoas, em sua maioria jovens na casa dos 20 anos, os mesmos que no mês passado irromperam na casa do diretor Guy Ritchie, ex-marido da cantora Madonna.

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Efe (09/03/2011)



Um grupo de Okupas em frente à casa de Saif al-Islam, filho do líder líbio Muamar Kadafi, em Londres

 

Depois de desviar de móveis e caixas de papelão vazias, produto da última de muitas mudanças, subi ao primeiro andar, onde uma dúzia de pessoas escutava um pronunciamento, distribuída em poltronas ao redor de um amplo aposento que um dia foi uma sala de jantar. Era uma das muitas palestras que acontecem todo dia neste espaço progressista, gratuito e aberto a todos, onde se apresenta desde poesia cubana até teorias marxistas, e inclusive são oferecidas aulas de russo e francês.

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O Really Free School é o rosto mais visível dos okupas de Londres, um movimento em pleno auge devido à atual crise econômica e ao desemprego juvenil, segundo imobiliárias que agora oferecem agentes de segurança para proteger casas desocupadas. As imobiliárias advertem que os okupas usam métodos cada vez mais sofisticados para invadir as propriedades e desativar os alarmes, amparados pela lentidão da justiça, que leva semanas para desalojá-los. Sua última vítima foi Saif al-Islam, filho do líder líbio Muamar Kadafi, cuja mansão de 17,5 milhões de dólares no exclusivo bairro de Hampstead foi ocupada nesta semana por outro grupo, chamado “Abaixo os tiranos”.

 

No entanto, os membros do Really Free School garantem que não pretendem derrubar ninguém, nem ocupar suas casas. “A casa de Ritchie foi puro acidente, pensávamos que fosse uma escola abandonada. A imprensa sempre nos acusa de ocupar propriedades privadas aproveitando que estão em obras, mas isso é mentira”, comenta um jovem de barba e boina verde que, como todos os outros, prefere não revelar o nome quando digo que trabalho para um órgão da imprensa brasileira.

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Ele explica que se juntou ao grupo há um ano, depois de se formar na universidade e não conseguir trabalho. Acrescenta que o grupo sobrevive com doações e o que encontra no lixo, de mesas e cadeiras a computadores e projetores. “Há um mês e meio, decidimos não falar mais com os jornalistas, que são muito agressivos. Chegaram a nos perguntar se tomávamos banho e publicaram o nome de um de nossos conferencistas, que é advogado. Poderiam ter arruinado sua carreira.”

 

Conversamos no segundo andar, ao lado da cozinha, onde vários jovens, entre eles uma canadense que cursa doutorado sobre educação em uma prestigiada universidade local, fritam batatas e esquentam chá. De repente, alguém avisa que jornalistas voltaram a aparecer do lado de fora. “Venha, vista isso e apareça na janela, para sair nos jornais”, afirma uma menina, rindo e apontando para um capuz negro de lã sobre a mesa. “Minha tia tricotou para mim há um mês, mas me disse para usá-lo só para fins pacíficos. Veremos.”

 

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Crise financeira britânica estimula crescimento dos 'okupas', grupos que invadem imóveis ociosos

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