Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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Encerrar o conflito armado entre Estado e grupos guerrilheiros que já dura décadas no país. Foi com essa promessa, considerada por analistas como necessária e audaciosa, que Gustavo Petro se tornou o primeiro presidente de esquerda a governar a Colômbia. Logo no primeiro ano de seu mandato, ele enviou ao Congresso um projeto batizado de “paz total”, que busca construir acordos de paz com grupos armados colombianos e transformar o tema em uma política de Estado.

Entretanto, um ano após a histórica aprovação da proposta no Legislativo, as negociações estiveram ameaçadas nas últimas semanas por dificuldades impostas pela complexidade dos conflitos.

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Tensões com dois dos principais grupos guerrilheiros da Colômbia estremeceram os planos de paz do governo: o envolvimento do Exército de Libertação Nacional (ELN) no sequestro do pai de um famoso jogador de futebol colombiano e a saída, ainda que momentânea, do Estado Maior Central (EMC) das mesas de negociação. Para o cientista político colombiano Jairo Ramírez, o projeto de Petro sofre com suas próprias virtudes já que, por se tratar de uma iniciativa inédita, enfrenta dificuldades que são difíceis de prever.

“Uma tarefa dessa natureza não é fácil, porque está sendo ensaiado um novo modelo de negociação para resolver o conflito, diferente do modelo que haviam aplicado em anos anteriores nas distintas tentativas de negociação com as elites dominantes daqueles momentos”, afirmou ao Brasil de Fato o pesquisador.

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Ramírez explica que planos de paz anteriores buscaram “subjugar as guerrilhas” e acabaram se transformando em “negociações cheias de travas, condições, com muitas linhas vermelhas que faziam com que a assinatura de um acordo fosse uma rendição, porque era se submeter às condições que a parte dominante impunha”.

“Agora é diferente, há uma maneira mais aberta, mais razoável, mais disposta a facilitar condições para que haja esse acordo de paz, o que também faz com que aumente a complexidade para alcançar consensos entre as partes”, diz.

As turbulências entre o governo e os grupos guerrilheiros fizeram com que Petro demitisse o alto comissário para a paz, Danilo Rueda, na última quarta-feira (22/11). O cargo agora será ocupado pelo ex-guerrilheiro Otty Patiño, que até o momento liderava a delegação governista na mesa de negociação com o ELN.

ELN, sequestros e paz interrompida

O Estado colombiano e o ELN já participaram de outras quatro tentativas de encerrar o conflito que se arrasta desde os anos 1960 no país. A primeira ocorreu ainda em 1975, outras duas surgiram na década de 1990 e, mais tarde, a última tentativa frustrada se deu durante o governo de Álvaro Uribe, entre 2005 e 2007.

Foi só em 2016, no governo de Juan Manuel Santos, e no ano em que foram assinados os Acordos de Paz com as Farc, que o ELN e o governo colombiano deram início a uma mesa de diálogos para a execução de um plano de paz definido. Entretanto, quando o direitista Iván Duque, ferrenho opositor a uma saída negociada para o conflito armado, sucedeu Santos na Presidência, os diálogos foram suspensos.

As negociações entre o governo Petro e o grupo, iniciadas em novembro de 2022, constituem uma retomada do processo iniciado em 2016, com atualizações no cronograma e nas reivindicações de ambas as partes. Por isso, o maior esforço da atual administração na aplicação do projeto de “paz total” é transformar os diálogos e acordos em políticas de Estado, na tentativa de evitar que eles sejam rompidos ou descumpridos por futuros presidentes.

No entanto, as dificuldades não vêm apenas das mudanças presidenciais. O envolvimento do ELN – a maior e mais antiga guerrilha em atuação na Colômbia – no sequestro de Manuel Díaz, pai do jogador de futebol colombiano Luis Díaz, estrela do time britânico Liverpool e da seleção nacional, trouxe riscos à continuidade do processo.

Manuel foi sequestrado no dia 28 de outubro e ficou em cativeiro durante 12 dias. A ação foi condenada pelo governo colombiano e afetou as negociações com o grupo que já vêm acontecendo há um ano. A próxima rodada de diálogos entre as partes deve ocorrer nesta semana no México e, segundo Petro, o tema dos sequestros será central.

Caso de sequestro e suspensão unilateral de diálogos causaram turbulências nas negociações entre Estado e grupos armados

Presidência da Colômbia

Presidente colombiano Gustavo Petro demitiu o alto comissário para a paz, Danilo Rueda, devido a impasse nas negociações com o ELN e EMC

“Devemos estabelecer caminhos de superação completa da violência, de maneira integral. Se o ELN realmente tem uma vocação de paz – e eu espero que seja assim – então há passos que estão na hora de serem dados e o momento já chegou, esse é o momento de superar a luta armada”, disse o presidente colombiano após a libertação de Díaz.

Do lado guerrilheiro, o primeiro comandante do ELN, Antonio García, disse que ainda não foi construído nenhum acordo sobre a prática de sequestros e afirmou que o grupo precisa “realizar operações militares para conseguir recursos financeiros, pois não nos financiamos através do narcotráfico”.

Ainda segundo García, os realizadores do sequestro de Manuel Díaz “não informaram o Comando Central que, entre seus objetivos, estava um familiar de Luis Díaz, só o fizeram após executar a operação. Por isso que ao tomar conhecimento, o Comando Central classificou [o sequestro] como um erro e ordenou sua libertação”.

Para o cientista político Jairo Ramírez, a prática de sequestro para angariar fundos para os grupos armados deveria ser mais abordada nas rodadas de diálogo, “pois isso joga a opinião pública contra os processos e acaba incentivando setores da imprensa hegemônica que todo dia pressionam o governo a suspender os diálogos”.

EMC, dissidências e cessar-fogo

Atritos também ocorreram com o Estado Maior Central (EMC), um dos grupos dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). No dia 5 de novembro, a guerrilha anunciou de maneira unilateral a saída das mesas de negociações, alegando que a presença do Exército colombiano na região de El Plateado teria violado acordos com o governo.

Na verdade, o deslocamento de tropas para essa zona fazia parte de um plano anunciado pelo presidente Gustavo Petro para ampliar a segurança durante as eleições regionais que ocorreram no dia 29 de outubro em todo o país. De acordo com o grupo armado, a presença de militares em El Plateado foi negociada e teve o aval do EMC, com a condição de que eles deixassem a região três dias depois da votação, no dia 1º de novembro.

A retirada, porém, terminou acontecendo só no dia 6 de novembro, o que teria desagradado o grupo e motivado sua saída das mesas de negociação. O governo, por sua vez, ainda não confirmou nem negou a existência de um acordo com o EMC, ainda que alguns jornais colombianos tenham afirmado que tiveram acesso a documentos que confirmam o pacto entre as partes.

A decisão do grupo de abandonar os diálogos abalou o avanço das negociações, já que as partes haviam acabado de assinar um cessar-fogo, no dia 16 de outubro, que duraria três meses. No último dia 15 de novembro, o governo anunciou a retomada de negociações com o EMC, embora o grupo ainda não tenha confirmado o retorno às mesas.

“O diálogo com o EMC é um processo instável desde o princípio, há divergências entre as partes e até mesmo entre os representantes do grupo”, disse ao Brasil de Fato o venezuelano Jorge Forero. Pesquisador do Centro de Investigação e Estudos Fronteiriços da Venezuela, ele afirma que a instalação de uma mesa de negociações com as dissidências das FARC foi uma grande vitória, mas agora o processo parece entrar “em um círculo vicioso”.

“O EMC diz que o Exército rompeu os acordos por conta da presença de militares em zonas proibidas, algo muito complexo de confirmar, porque a Colômbia é um país que esteve marcado por cercos militares em várias regiões durante décadas. Não estou justificando, só quero dizer que é muito complicado para o governo Petro conseguir controlar casos de excessos de militares em situações de cessar-fogo como essas”, explica.

Para Jorge Forero, os casos recentes de turbulências envolvendo o ELN e o EMC evidenciam as dificuldades do projeto de Petro ser realizado a curto prazo, “apesar de sua importância histórica para a Colômbia”. “Existem contradições que estão relacionadas com interesses econômicos, políticos e até geopolíticos de alguns setores que instrumentalizam o conflito no país”, afirma.

Jairo Ramírez concorda e acusa a extrema direita colombiana de ser o maior inimigo da paz no país. “Esse setor quer a reativação da guerra, não somente com os grupos ativos, mas também querem que os firmantes da paz voltem à guerrilha porque não os querem na vida pública, portanto se trata de uma classe política absolutamente reacionária”, diz.