Só uma democracia forte suporta uma cultura próspera e livre, diz ministra sueca Alice Bah Kuhnke

Uma dos 23 ministros do país (dos quais 12 são mulheres), chefe da pasta de Cultura e Democracia fala a Opera Mundi sobre 'governo feminista' sueco

São 23 os ministérios do governo sueco, descontando-se o cargo do primeiro-ministro. Número quase idêntico ao total de pastas do atual governo brasileiro, liderado pelo vice-presidente em exercício da Presidência do país, Michel Temer. As semelhanças, porém, se encerram no total de pastas.

Salta aos olhos a diferença no modo como cada um dos governos escolheu compor seu gabinete. Enquanto Michel Temer nomeou um gabinete formado inteiramente por homens brancos, Stefan Löfven, chefe de Estado do país escandinavo, organizou seu governo entre 12 ministras e 11 ministros. Uma das tantas mulheres de sua equipe é Alice Bah Kuhnke, 44 anos, negra, filha de mãe sueca e pai gambiano. Nascida em Malmö, terceira maior cidade da Suécia, e crescida em uma área rural ao sul do país, Kuhnke chefia o Ministério de Cultura e Democracia.

Anders Henrikson / Flickr CC

'Não existe nenhuma área política no governo na qual não haja metas relacionadas a gênero', disse a ministra sueca Alice Bah Kuhnke

Durante o último festival de Cannes, Kuhnke deu uma definição sobre a composição ministerial sueca que, se feita no Brasil, daria origem a discussões infindáveis nas redes sociais. Conversando com a professora de cinema e teatro Karin Badt, a ministra da Cultura definiu a direção atual do seu país como “um governo feminista”. E completou: “uma das razões para a Suécia ter o maior crescimento econômico da Europa é porque a igualdade de gênero é parte da nossa missão”, disse. “Não existe nenhuma área política no governo na qual não haja metas relacionadas a gênero”.

Kuhnke foi a Cannes falar exatamente sobre a participação das mulheres na política. O país ocupa hoje a sexta posição no ranking de igualdade de gênero da Organização das Nações Unidas e segue firme na proposta de novas políticas para essa área. Durante o festival francês, a ministra falou sobre uma iniciativa do governo sueco para promover a igualdade de gênero no cinema. A ideia é fazer com que as mulheres ocupem metade dos postos na indústria cinematográfica, assim como acontece hoje no gabinete de Stefan Löfven, o primeiro-ministro do país.

O momento, acredita Kuhnke, é bom. “Estamos investindo mais recursos na área cultural do que o investimento feito em muitas décadas. É o resultado das prioridades que nós definimos e é uma escolha da qual estamos orgulhosos”, falou a ministra a Opera Mundi.

Ela preferiu não opinar sobre a situação política do Brasil e a falta de diversidade no gabinete do governo interino de Temer – “não cabe a mim dizer como outros governos devem se organizar”, disse Kuhnke. Mas garantiu, citando o exemplo da Suécia, que “uma democracia forte é o único sistema que suporta uma cultura próspera e livre. E vice-versa: a liberdade cultural é sempre a primeira área atacada quando há quebras no sistema democrático”.

Infografia: Rachel Costa / Opera Mundi

Nem tudo são flores

Um desafio talvez mais espinhoso que Kuhnke tem à frente é o de acalmar os ânimos em uma Suécia cada vez mais polarizada, onde grupos racistas, xenófobos e extremistas têm ganhado cada vez mais espaço. Democracia é uma das responsabilidades incluídas na pasta sob o comando da ministra e, atualmente, é esse o principal foco de suas ações, informa a página ministerial: salvaguardar a democracia, combatendo a polarização e o racismo.
 

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O foco foi determinado após consecutivos puxões de orelha da ONU, nos quais a organização apontou para a elevada ocorrência de casos de racismo na Suécia. Dados reunidos pelo órgão mostram 24% de aumento nos crimes de ódio contra afrodescendentes entre 2008 e 2014. “Muitos casos são reportados, poucos são julgados”, avaliou o grupo de especialistas das Nações Unidas que visitou a Suécia. “Também tomamos conhecimento de casos de discriminação no acesso a saúde, moradia e emprego. Preocupa-nos a existência de segregação por bairros e os relatos de clínicas de saúde, bancos e outros serviços essenciais sendo totalmente retirados dessas áreas”, diz o relatório.

A ministra sueca Alice Bah Kuhnke durante reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU:

 

Igår kväll höll jag Sveriges anförande i FN:s råd för mänskliga rättigheter. (OBS! Länk till talet i profiltexten). Vår syn på mänskliga rättigheter möter mycket respekt i stora delar av världen men också en del kritik. MR-rådet har även det emellanåt varit kritiserat. Jag ser det som varje demokrats uppgift att våga vara obekväm och tala om det som pågår i världen som strider mot mänskliga rättigheter. Dvs om stater som förtrycker sin egna befolkning, om bristen på yttrandefrihet, pressfrihet, HBTQ-personers och urfolks rättigheter. Att många stater idag inför repressiva lagar mot det civila samhället är en skam. Det var mitt huvudbudskap i talet - att alla stater har ett ansvar att respektera och främja de mänskliga rättigheterna. Tiden var hårt begränsad, alla stater ska få tid att säga sitt, men jag försökte vara precis lika tydlig som jag var i det enskilda samtalet med Tjeckiens MR minister. Då om vårt Europa som skakar i sina grunder och vad vi måste och kan göra tillsammans (!) för att hjälpa de människor som flyr för sina liv. #mr #un #svpol #eu

Uma foto publicada por Alice Bah Kuhnke (@alicebahkuhnke) em


O problema apontado pela ONU não é novo e a própria ministra sabe disso. “Cresci em uma vila muito pequena, em uma área rural, e, desde muito nova, eu percebi que não era tratada como as outras crianças. Quando tinha cerca de 10 anos, recebi minha primeira ameaça de morte por causa da cor da minha pele. Meu pai, porém, sempre disse que não era para eu ter medo, porque se tememos, são os outros que ganham”, conta Kuhnke.

Sua antecessora na pasta da Cultura e da Democracia, inclusive, viu-se em meio a uma intensa polêmica, até hoje lembrada no país, ao participar de uma intervenção artística denominada Painful Cake, sobre mutilação genital feminina, durante as comemorações do Dia Mundial da Arte em 2012. Durante sua participação na performance do artista sueco Makode Linde, ela cortou um bolo representando a região genital de uma mulher retratada segundo o estereótipo da mulher africana. Em seguida, serviu a fatia da vagina à boca do artista. Fotos do evento mostravam a figura negra prostrada, boca aberta, circundada por pessoas brancas sorridentes, dentre as quais a ex-ministra Lena Adelsohn Liljeroth.

Reprodução/David Lagerlöf Twitter

Ativista do grupo Afrophobia Focus, Tess Asplund protestou contra manifestação neonazista no domingo (01/05) e foto viralizou

Não faz muito tempo, outra imagem que define bem essa tensão racial dentro da sociedade sueca rodou o mundo. A foto mostrava uma mulher negra, punhos e cabeça erguida, enfrentando solitariamente uma massa de cerca de 300 neonazistas durante uma marcha na cidade de Borläge, na região central do país. A protagonista da imagem era Tess Asplund, uma ativista sueca de origem africana. “A imagem é um lembrete importante para todos nós da necessidade de nos levantarmos contra o racismo todas as vezes em que ele se erguer, não só nas ruas, mas todos os dias”, avalia Kuhnke.

Para ela, porém, são momentos sociais muitos distintos na história do país os que separam as animosidades sofridas por ela na infância da foto de Asplund. E é exatamente nessa diferença que mora o maior desafio do governo do qual ela faz parte: “A violência da extrema-direita é a mesma de quando eu era criança, porém, agora, a sociedade inteira está muito mais polarizada. Essa é uma das maiores responsabilidades que tenho como ministra: criar uma sociedade onde nós possamos viver juntos”, conclui a ministra sueca. 

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