Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
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A Grécia e a Macedônia encerraram uma disputa de décadas envolvendo o nome da ex-república iugoslava, que passará a se chamar Macedônia do Norte após um acordo entre os dois países ter sido aprovado nesta sexta-feira (25/01) pelo Parlamento grego, dias após ser validado pelo Legislativo macedônio.

Para entender essa disputa singular na Europa, é preciso voltar séculos na História. Na Macedônia Antiga, nasceu Alexandre 3º da Macedônia, comumente conhecido como Alexandre, o Grande. Ele foi aluno de Aristóteles – que, junto com Sócrates e Platão, é considerado o fundador da filosofia grega.

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Alexandre foi também um ousado guerreiro, que primeiro derrotou as antigas tribos gregas e, depois, liderou campanhas militares de sucesso contra os persas e expandiu o reino da Macedônia até a Índia.

Muitas pessoas na República Helênica – nome oficial da Grécia, proveniente do período helenístico, cujo surgimento foi estimulado pelas fusões dos povos conquistados por Alexandre, o Grande – até hoje consideram o antigo imperador macedônio “o maior grego de todos os tempos”.

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Após sua morte em 323 a.C., o império entrou em colapso, e os traços do passado grego foram rapidamente dissipados em muitas regiões, especialmente na Ásia. Por pelo menos 400 anos o nome Macedônia definiu uma grande região geográfica no sudeste da Europa que ficou por muito tempo sob o domínio do Império Otomano.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Grécia herdou a maior parte desse território, incluindo sua capital multiétnica Tessalônica, cidade que leva o nome da meia-irmã de Alexandre, o Grande. A região tomada pelos gregos seguiu se chamando Macedônia.

Após a Segunda Guerra, os comunistas fundaram a então República Popular Federativa da Iugoslávia, que fazia fronteira com a Grécia. Seu estado mais ao sul levava o nome de República da Macedônia – e foi com esse mesmo nome que o país proclamou sua independência após o fim da Iugoslávia, em 1991.

Na capital, Escópia, Alexandre foi declarado “o maior macedônio de todos os tempos”. Devido à situação instável na região, para os gregos, esse foi o momento determinante para uma confrontação com a Macedônia, explica o cientista político Jorgos Tzogopoulos.

“A disputa real começou somente nesse contexto, após o fim da Guerra Fria”, afirma Tzogopoulos em entrevista à DW. “A Grécia acredita que o termo Macedônia ofende seus interesses econômicos e também indica futuras reivindicações territoriais – especialmente porque a região geográfica da Macedônia se estende por três Estados: a própria República da Macedônia, a Grécia e a Bulgária.”

O “erro” do lado grego

Houve, de fato, reivindicações por parte dos macedônios? No início do século 20, em Escópia, o movimento nacionalista VMRO chegou a expressar desejos de unir “toda a Macedônia”, incluindo a cidade de Tessalônica, localizada em território grego. Naquela época, o nacionalismo já estava amplamente difundido na região.

Por outro lado, após a declaração de independência em 1991, o primeiro presidente da Macedônia, Kiro Gligorov, declarou explicitamente que seu país era habitado por eslavos que têm pouco a ver com seus vizinhos gregos – uma tentativa de tranquilizar os céticos do outro lado da fronteira.

E quase deu certo: em 1992, sob mediação da União Europeia (UE), Gligorov e o então primeiro-ministro conservador grego, Konstantin Mitsotakis, pareceram concordar com o nome de “Nova Macedônia”. Mas, no último momento, Mitsotakis hesitou – provavelmente por medo de que seu próprio partido não apoiasse o compromisso.

Anos depois, sob mediação das Nações Unidas, Atenas e Escópia concordaram com o nome provisório de “Antiga República Iugoslava da Macedônia”.

Na vizinha Grécia, o termo ainda é usado na vida cotidiana. Mas em todos os outros cantos do mundo prevaleceu o nome simplificado de República da Macedônia. O cientista político Tzogopoulos afirma ter sido um erro do lado grego não ter tomado qualquer iniciativa para uma ratificação do compromisso.

“Como resultado, ao longo do tempo, mais e mais países foram solicitados a reconhecer o país vizinho sob seu nome constitucional”, disse o analista. Acima de tudo, foi decisivo o reconhecimento da República da Macedônia pelos Estados Unidos em 2004.

Pré-requisito para adesão à Otan e à UE

No entanto, os gregos ainda tinha uma carta na manga, um trunfo de negociação: eles poderiam bloquear, por meio de veto, a adesão do país vizinho à Otan e à União Europeia.

Após pressão de Atenas, uma cúpula da Otan, em 2008, alertou que a solução da disputa pelo nome era um “pré-requisito” para a adesão da Macedônia. Escópia reclamou do que chamou de “bloqueio ilegal grego”. Um novo “período gélido” se anunciava e, somente após mudanças de governo nos dois países, chegou o momento certo para uma reaproximação.

Em 2018, o premiê grego esquerdista, Alexis Tsipras, e seu homólogo macedônio, Zoran Zaev, assinaram um acordo de compromisso. Segundo o documento, o vizinho grego seria renomeado para “República da Macedônia do Norte” e, em troca, Atenas retiraria seu veto à adesão da Macedônia à Otan e à UE. O acordo foi finalmente aprovado por ambos os Parlamentos neste mês, encerrando décadas de disputa.

O cientista político Tzogopoulos diz acreditar que o acordo abre oportunidades completamente novas para as relações entre os dois países, especialmente no turismo.

“Um exemplo disso é que a companhia aérea grega Aegean Airlines tem oferecido há algumas semanas voos diretos de Atenas para Escópia – algo nunca feito no passado”, afirma o especialista.

Em geral, as relações entre os dois povos são bastante amigáveis. “Além da disputa pelo nome, nunca tivemos problemas um com o outro. E as empresas gregas estão ativas por lá e estão entre os maiores investidores e parceiros comerciais do país vizinho.”

A Grécia e o pequeno país balcânico ao norte selaram um acordo que encerra décadas de disputa sobre o termo Macedônia. Entenda o que está em jogo nesse entrave geopolítico e histórico

Reprodução

Protesto na Grécia contra o acordo recente com a Macedônia