Quinta-feira, 5 de março de 2026
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A ideia original para a última edição da Cúpula das Américas era estreitar laços e aprofundar a cooperação entre os países do continente no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). Os Estados Unidos, que sempre consideraram o espaço geográfico latino-americano como o seu “quintal”, viram a oportunidade de sediar a reunião, em Los Angeles, como um momento propício para que o governo de Joe Biden retome parte da influência norte-americana na América Latina e consiga fazer frente à expansão da influência política e econômica da China na região. Os países latino-americanos têm sido pressionados pelos Estados Unidos a não estreitarem laços com a China em projetos estratégicos. Mas afinal, o que as duas potências têm a oferecer aos países da região?

Três países latino-americanos não foram convidados a participar desta edição da Cúpula das Américas – Venezuela, Nicarágua e Cuba – sob a alegação do país anfitrião de que violam os princípios democráticos do encontro. A Venezuela é estrangulada por uma série de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. As sanções proíbem todas as transações de pessoas físicas e jurídicas com empresas que tenham operações em território norte-americana, limitando seu acesso ao sistema financeiro internacional, as operações das empresas venezuelanas no exterior e de empresas estrangeiras na Venezuela. Isso atinge especialmente a empresa estatal de petróleo, a PDVSA, que corresponde à maior parte das atividades econômicas de um país que tem parte considerável da sua economia baseada no petróleo.

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Enquanto as sanções são responsáveis por grande parte das dificuldades econômicas da Venezuela, a China tem se apresentado como uma alternativa, tornando-se a principal parceira comercial, financeira e política do país. A relação com a China tem sido fundamental para que a Venezuela consiga crédito e liquidez em moeda conversível, por meio de contratos que asseguram o fornecimento de petróleo venezuelano para a China, e tem sido essencial para a recuperação econômica da Venezuela e para contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos.

A Nicarágua, outro ausente, também é um país para o qual a China tem se transformado em um importante parceiro em substituição aos EUA. A aproximação entre a China e a Nicarágua se estabeleceu a partir de dezembro de 2021, quando o país da América Central rompeu relações diplomáticas com o governo de Taipei e passou a reconhecer o governo em Beijing como a legítima representação da China. Tal aproximação ocorreu após o não reconhecimento por parte da Organização dos Estados Americanos (OEA) do resultado das eleições presidenciais quando Daniel Ortega foi reeleito.

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Para a China, as relações diplomáticas representam a possibilidade de estabelecer acordos de cooperação e ampliar as relações comerciais com a América Central, que historicamente se vê sob a influência dos Estados Unidos e concentra o maior número de países que mantêm laços diplomáticos com Taiwan. Já para a Nicarágua, tal aproximação representa uma política externa mais independente e um afastamento da esfera de influência de Washington. 

Estados Unidos enfrentam dificuldades para manter influência histórica sobre a América Latina, ligadas à ascensão política e econômica da China, mas também à falta de resposta para os problemas latino-americanos

Gobierno de Chile

Xi Jinping na abertura da Cúpula de Líderes da Mídia China-América Latina, em 2016

Há ainda o caso do Brasil, que tem sido pressionado pelos Estados Unidos a auxiliar o seu interesse de reduzir a influência da China na América Latina.  Cabe destacar, por exemplo, a pressão para que o lançamento do edital para implementação da tecnologia 5G no Brasil restringisse a atuação de empresas chinesas, particularmente a gigante Huawei. O Embaixador dos Estados Unidos no Brasil chegou a afirmar que o país “sofreria as consequências”, caso optasse pela tecnologia chinesa. Entretanto, a tecnologia oferecida pelas concorrentes da Huawei era mais custosa e tornaria a implementação da rede 5G mais onerosa para as operadoras brasileiras, o que acabou fazendo com que o governo brasileiro não criasse regras para restringir a participação de empresas chinesas. Estabeleceu-se, no entanto, a construção de uma rede restrita para o governo federal, que afastasse supostas falhas de segurança da tecnologia chinesa e supostos casos de espionagem.

Outro exemplo similar de pressão é o caso da Argentina, que recebeu uma visita relâmpago de representantes do governo de Joe Biden, com o objetivo de impedir que o país optasse por construir uma usina nuclear com tecnologia chinesa, mas acaba de receber apoio da China para sua adesão ao Brics. A aproximação entre Argentina e China ocorreu pelo interesse chinês nos vastos recursos naturais argentinos, especialmente produtos como soja, carne, e diversos outros insumos agrícolas. Em contrapartida, a cooperação com a China tem aliviado as dificuldades econômicas da Argentina, contornando as imposições do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ampliando o acesso do país às importações de bens de capital e de manufaturados chineses, sem depender de suas reservas escassas em dólar.

Recentemente, a Argentina aderiu ao projeto chinês de investimentos em infraestrutura, a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). Antes da entrada, o país já havia garantido financiamentos expressivos em infraestrutura, como o observatório espacial chinês, instalado na província argentina de Neuquén, na Patagônia, a construção de um gasoduto e uma linha de alta tensão de 132 km para fibra óptica na província de Entre Ríos, pela Corporação Nacional de Importação e Exportação da China (CNTIC), além da negociação de uma linha de crédito para financiar a importação de equipamentos chineses e modernizar o parque industrial argentino.

A partir da observação destes exemplos e da realização da Cúpula das Américas, é possível concluir que os Estados Unidos têm encontrado dificuldades para manter o mesmo grau de influência que historicamente exerceu sobre a América Latina. Estas dificuldades estão relacionadas à ascensão política e econômica da China, mas também com a falta de propostas reais dos Estados Unidos para os problemas dos países latino-americanos. A China tem se apresentado como uma alternativa concreta para auxiliar em projetos de interesse para o desenvolvimento da região. Desse modo, enquanto a China oferece investimentos em infraestrutura ou linhas de financiamento, os Estados Unidos têm, em contrapartida, oferecido apenas o discurso de que a cooperação com a China não é benéfica para a região. Cabe à América Latina explorar as relações que melhor atendem às suas necessidades.

(*) O OPEB  é um núcleo de professores e estudantes de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC que analisa de forma crítica a nova inserção internacional brasileira, a partir de 2019. Atuando como think tank e plataforma de conteúdo, promove cursos e palestras, publica livros e uma newsletter quinzenal sobre dez temas, coordenados por referências nos debates sobre América Latina (Gilberto Maringoni), Brasil – China (Ana Tereza Marra e Giorgio Romano), Brasil – EUA (Tatiana Berringer), Comércio Internacional (Lucas Tasquetto), Direitos Humanos e Migração (Gilberto Rodrigues), Meio Ambiente e Agricultura (Diego Azzi e Olympio Barbanti Jr.), Inserção Econômica Internacional (Giorgio Romano), Políticas de Defesa (Flávio Rocha), Relações com o Continente Africano (Flávio Thales e Mohammed Nadir) e Arte e Informação (Mathias Alencastro).