Quinta-feira, 14 de maio de 2026
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Por que Opera Mundi faltou com a verdade?

Em sua newsletter de 22 de março, às 20h09, o site Opera Mundi divulga uma intrigante combinação: um texto sobre o crescimento de Jean-Luc Mélenchon, candidato da União Popular às presidenciais francesas, e outro texto em que Valter Pomar responde ao artigo de Markus Sokol, publicado na página três da Folha de São Paulo, no dia de 21 de março.

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Nas duas matérias, sobre Mélenchon e na de Valter, falta-se com a verdade, o que não é o padrão do veículo.

Por que então essa combinação?

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A guerra sempre dividiu águas no movimento operário. Os internacionalistas separaram-se definitivamente da socialdemocracia por ocasião da Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, quando os seus principais partidos na Europa votaram os créditos de guerra e se alinharam com os respectivos imperialismos na guerra mortífera. Obviamente, desde o princípio, os debates apaixonaram, precipitaram, mas também revelaram.

Pois bem.

O site Opera Mundi afirma que Mélenchon cresce na eleição francesa – entre 13% e 16% conforme o instituto de pesquisa – porque há uma “divisão na extrema direita e menos candidatos no campo da esquerda”. Não é verdade.

Com um programa de “ruptura”, Mélenchon propõe, coerentemente, fundar uma Sexta República por meio de uma Assembleia Constituinte Soberana, capaz de recompor a vida do povo, revogar todas as medidas danosas da União Europeia que, em nome da austeridade, foram aplicadas e acompanhadas por décadas pelo PS e PCF nos governos, numa política de privatizações e fechamento de fábricas, demissões, redução de direitos e precarização dos serviços públicos. Isso levou esses partidos a serem desprezados por camadas crescentes do povo. 

Mélenchon cresce numa situação difícil, em particular agora, porque a multiplicidade de candidatos que se apresentam como “esquerda” foi murchando ao longo da campanha. Hoje, Anne Hidalgo, do PS, está com 2% nas pesquisas e Fabien Roussel, candidato do PCF, que pela primeira vez em três eleições não apoia Mélenchon, está com 3%, na verdade dividindo votos de “esquerda”. Christiane Taubira, ex-ministra de Hollande (PS), se retirou diante do naufrágio da candidatura. 

A opinião pública ainda considera “esquerda” os candidatos do Novo Partido Anticapitalista, da Luta Operária, todos com algo entre 0,5% e 1%, além dos Ecologistas com 5%. Pouco para cada um, mas que podem ser votos suficientes para tirar Mélenchon do segundo turno.

E por que murcharam os tradicionais “de esquerda” que poderiam ser competitivos? Porque todos esses, sem exceção, alinharam-se a Emmanuel Macron, presidente de turno da União Europeia, nas brutais sanções à Rússia, que atingem em cheio o povo russo. Alinharam-se às sanções que, agora, levam, segundo anunciou o próprio Macron, à carência de gás na França, para felicidade dos exportadores “made in USA” e do Catar.

E, dentre todos os candidatos, da esquerda e da direita, Mélenchon é o único que diz “Não à Guerra” de Vladimir Putin. Não é por acaso que 100 mil pessoas compareceram ao comício de 20 de março, em Paris, em que Mélenchon declarou: “Dedico esta manifestação à resistência do povo ucraniano contra a invasão russa e dedico aos russos corajosos que resistem em seu próprio país contra a guerra e contra a ditadura, simultaneamente.” 

E é por isso que, sim, Mélenchon é uma candidatura que merece o apoio de todos quantos lutem contra o imperialismo, em defesa da classe trabalhadora no seu próprio país.

Para o leitor, Opera Mundi divulgou uma combinação 'intrigante' de textos: sobre o crescimento de Jean-Luc Mélenchon na França e um artigo de Valter Pomar

Reprodução/ @JLMelenchon

Na França, para Cardoni, a porcentagem de Mélenchon cresce em uma ‘situação difícil’

Sobre a “divisão da extrema direita”, há na imprensa francesa quem diga que a candidatura de Eric Zemmour foi embalada de cima para recuperar parte do eleitorado extremista decepcionado com Marine Le Pen, a extrema direita tradicional, mas desgastada, e/ou para embolar o jogo onde Mélenchon era um desafiante temido. Mas a tentativa, se existiu, ruiu quando todos apoiaram as duríssimas sanções contra a Rússia, que atingem o povo russo e se voltam contra os próprios povos da Europa, em benefício do imperialismo dos Estados Unidos, diretamente, ou via Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança guerreira que deveria ser dissolvida. 

Mas talvez o site Opera Mundi tenha mais informações sobre a extrema direita francesa do que eu.

De toda forma, obliterada a verdade sobre o crescimento de Mélenchon, por que então publicar junto o artigo de Valter Pomar? Será coincidência? Não parece.

A lógica aponta para o seu centro, logo na chamada, que é um mal disfarçado apoio à guerra: “A maior parte do povo da Ucrânia é refém de uma situação, mas o governo ucraniano e seus apoiadores diretos não são reféns, são instrumentos da Otan”.

A “maior parte do povo”, o que significa isso? Existe ou não uma nação ucraniana? Putin diz que não. “Em parte”, qual parte? Uma nação ou um povo – com eventuais componentes diversas – é ou não é. Tal como uma gravidez é ou não é. 

E há falta de verdade com o artigo de Markus Sokol que, em nenhum momento, diz que “o governo ucraniano é refém”, mas, sim, que “há uma nação refém, a Ucrânia”. Nação não é governo, como o governo Bolsonaro, mesmo eleito, não é o povo brasileiro, como Volodymyr Zelensky foi eleito, também depois de um golpe de Estado, por sinal.

Sim, num mundo dominado pelo imperialismo muitos governos são seus agentes, diretos ou indiretos, e podem utilizar seu próprio povo como bucha de canhão. Mas é a nação ucraniana que é refém das duas potências, Putin e Joe Biden. Como salvar o refém, senão pela democracia, isto é, pela defesa do direito à autodeterminação da Ucrânia, toda a Ucrânia, o povo ucraniano, todo o povo? O interesse do povo coincide plenamente com o interesse dos trabalhadores.

Também não é verdade que essa guerra “não é maior conflito militar no coração da Europa desde a 2ª Guerra Mundial”. Valter afirma que a “maior” seriam os 78 dias de bombardeio (pela OTAN) da Iugoslávia. Mas o conflito militar não se mede por sua duração, fosse assim a Guerra dos Cem Anos seria a maior da história humana! Mede-se pelos meios de destruição empregados, soldados em ação e mortos, mortos! No caso da invasão da Ucrânia, o segundo maior país da Europa, as operações envolvem mais de 300 mil homens em armas, com o uso de mísseis balísticos, agora inclusive hipersônicos, capazes de atingir alvos a dois mil quilômetros de distância, e uma vastíssima destruição em menos de um mês!

Concluindo, para aqueles que exigem que “se escolha um lado nessa guerra” a solução não está na defesa da autodeterminação, mas, à sua maneira, o povo ucraniano o defende em manifestações diante de soldados russos pedindo que eles “vão embora!”, “voltem para casa!”. 

O texto de Valter Pomar termina não exigindo a retirada imediata e incondicional das tropas russas, o que traria o fim da guerra. Admite como quase natural sua continuidade e a extensão para outros países da Europa, o que seria uma catástrofe para os trabalhadores de todo o mundo. 

(*) Edison Cardoni é diretor da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (CONDSEF), filiada à CUT,  e militante do PT-DF.

NOTA DA REDAÇÃO: O texto de Valter Pomar é opinativo e, como outros textos do gênero publicado pelo site, não refletem necessariamente a posição de Opera Mundi. Quanto à notícia relativa à eleição francesa, Opera Mundi apresenta uma avaliação do quadro eleitoral divergente da leitura do leitor Edison Cardoni, o que não implica em falsidade nem de uma nem de outra.