Terça-feira, 30 de junho de 2026
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Dizer que Israel tem o direito de se defender é como dizer que um homem que comete abusos constantes tem o direito de se defender porque sua vítima o agrediu. Israel não é uma nação inocente sob ataque e se defendendo, como está sendo retratado por grande parte da mídia internacional. É um regime de apartheid colonial, estabelecido sobre as ruínas da Palestina e às custas do povo palestino em 1948.

Colonialistas, ocupantes e regimes de apartheid não têm o direito de defender suas ocupações e sistemas de apartheid. São os ocupados que têm o direito, de acordo com as leis internacionais, de se defenderem e libertarem seus países. A maioria dos colonos judeus está armada e é membro do corpo militar de reserva de Israel; Israel sabia do risco que corria ao perpetrar a Catástrofe (al-Nakba) de 1948, ocupando o país de outros e negando aos palestinos seus direitos por não serem judeus, no que foi estabelecido como um Estado judeu.

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Quando Israel se estabeleceu na Palestina em 1948, fez uma limpeza étnica de mais de 70% do povo palestino – entre 800 mil e 900 mil pessoas –, ocupou 78% do país e destruiu 531 cidades e vilarejos, incluindo 47 vilarejos no Distrito de Gaza, deslocando seus 80 mil residentes. A grande maioria dos palestinos deslocados refugiou-se em Gaza e, atualmente, somam centenas de milhares. Todos os kibutzes e colônias judaicas atacadas pelos combatentes do Hamas em 7 de outubro foram construídas sobre as ruínas dessas 47 aldeias ao redor de Gaza, incluindo Jiyya, Burayr, Hamama, Najd, Dimra e Simsim.

Antes da Nakba, a Faixa de Gaza e a área ao seu redor, chamada de “envelope”, constituíam o “Distrito de Gaza” e tinham uma área de 1.111 quilômetros quadrados. A agressão de Israel em 1948 reduziu Gaza ao que é hoje: 365 quilômetros quadrados, com uma população de 2,3 milhões de habitantes. Tem 41 quilômetros de comprimento e de 6 a 12 quilômetros de largura, além de uma das maiores densidades populacionais do mundo, com 6,3 mil pessoas por quilômetro quadrado.

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70% dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza são refugiados que passaram por limpeza étnica nesses vilarejos e em outros lugares. Suas fazendas, casas e pertences foram roubados, e eles foram expulsos para viver na miséria em Gaza, que, nos últimos vinte anos, se tornou o maior e mais impenetrável campo de concentração do mundo, cercado por arame farpado e restringido por todos os lados. Os habitantes de Gaza estão sendo punidos coletivamente por Israel, que os privou de seus direitos humanos e nacionais inalienáveis. A comunidade internacional os abandonou; a algumas centenas de metros de distância, os habitantes de Gaza observam colonos de todo o mundo vivendo no luxo, desfrutando dos frutos de suas fazendas.

Uma das coisas que enfureceu os líderes e generais israelenses foi o fato de um pequeno contingente de combatentes ter conseguido romper o “exército invencível” e, em poucas horas, infligir uma grande derrota à sua tecnologia de inteligência, espionagem e escuta eletrônica, que não conseguiu detectar o ataque. O mundo não levou em conta que os israelenses sofreram uma grande derrota militar. Fotos e vídeos mostram tanques israelenses em chamas com combatentes erguendo bandeiras palestinas sobre eles e soldados capturados. A mensagem dominante de Israel sobre a morte e o sequestro de israelenses oculta o fato de que os combatentes do Hamas lutaram e derrotaram as tropas israelenses em 7 de outubro, ocuparam suas bases militares, de segurança e policiais, confiscaram suas armas e detiveram entre seus prisioneiros dezenas de soldados e generais para serem trocados por mais de 6 mil presos políticos palestinos, incluindo crianças e mulheres, que definham nas prisões da ocupação. Sim, civis israelenses foram feitos reféns e muitos israelenses foram mortos, embora os relatos de atrocidades em muitos casos ainda não tenham sido comprovados.

Israel apresentou os combatentes do Hamas apenas como terroristas. O Ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, foi além em 9 de outubro, descrevendo os palestinos como animais e dizendo: “Estamos impondo um cerco completo a Gaza. Sem eletricidade, sem comida, sem água, sem combustível. Tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos e agiremos de acordo”, e o presidente de Israel, Isaac Herzog, disse em uma coletiva de imprensa em 13 de outubro que não há civis inocentes em Gaza. “É uma nação inteira que é responsável”, disse ele. Apresentar os combatentes do Hamas como animais atacando civis é a justificativa para sua guerra vingativa e bárbara de genocídio contra os palestinos em Gaza.

Israel não é uma nação inocente sob ataque e se defendendo, é um regime de apartheid colonial, estabelecido sobre as ruínas da Palestina

Shahar Sigal / IDF

Divisão de artilharia israelense treina nas Colinas de Golã em agosto de 2017

Israelenses sobreviventes do ataque declararam em entrevistas à mídia israelense que a maioria dos civis israelenses foi morta como resultado do bombardeio do exército israelense contra suas casas e da troca de tiros com combatentes do Hamas para evitar a tomada de reféns, de acordo com a diretriz militar israelense de 1986 chamada Diretriz Hannibal. Todos os vídeos do ataque mostram os combatentes portando apenas metralhadoras, o que significa que eles não poderiam ter bombardeado as casas. O jornal israelense Haaretz relatou que o exército só conseguiu restaurar o controle depois de admitir ter “bombardeado” as casas dos israelenses que haviam sido capturados.

Para encobrir o miserável fracasso de seu exército e de seu governo, Israel recorreu a táticas usadas por regimes coloniais em outros lugares para punir civis. Todos os colonialistas e ocupantes chamaram de “terrorismo” a resistência que enfrentaram, desde os colonialistas franceses, britânicos e holandeses até os nazistas, fascistas e o regime do apartheid sul-africano. Esses movimentos de resistência podem ser reduzidos a terrorismo? Se a Austrália fosse ocupada amanhã, os atos de resistência contra os ocupantes seriam considerados terrorismo?

A alegação de Israel de que está combatendo o terrorismo e quer eliminar o Hamas é ridícula, uma vez que não conseguirá eliminar a resistência palestina – seja do Hamas ou de qualquer outro grupo. De qualquer forma, se o Hamas fosse eliminado, surgiria outro grupo mais forte. Onde houver ocupação e opressão, sempre haverá resistência. Agora, no entanto, o que Israel está fazendo, e o mundo está testemunhando diariamente, é a matança de civis e crianças e a destruição de milhares de casas, grandes edifícios residenciais, escolas, hospitais, ambulâncias, mesquitas, igrejas, mercados, padarias e outras infraestruturas públicas. Tudo o que eles precisam fazer para encobrir seus crimes de guerra é dizer que um líder do Hamas estava residindo no local ou que havia um túnel sob o edifício, o hospital ou a mesquita, sem fornecer um pingo de evidência. E ainda assim essas mentiras são repetidas e distribuídas pela mídia ocidental.

A guerra de Israel contra Gaza é uma guerra covarde e genocida de um exército classificado como o quinto mais poderoso do mundo, que bombardeia civis com bombas aéreas dia e noite há quase quatro semanas, lançando, até agora, mais de 25 mil toneladas de explosivos sobre a Gaza sitiada – o equivalente a duas bombas nucleares, de acordo com o grupo EuroMed Rights em Genebra. Cada bomba está queimando e despedaçando os corpos de centenas de bebês, homens e mulheres, e dizimando famílias inteiras. Além disso, Israel cortou o fornecimento de alimentos, água, eletricidade, combustível, comunicação e Internet.

O Ministério da Saúde em Gaza documentou, de 7 de outubro a 7 de novembro, a morte de 10.165 pessoas, incluindo 4.237 crianças e 2.509 mulheres, com mais de 27.000 feridos. Além disso, mais de 2 mil pessoas, incluindo cerca de 1.350 crianças, foram dadas como desaparecidas sob os escombros. Na Cisjordânia, 155 pessoas foram mortas e 2.040 foram presas. Isso equivale, em termos proporcionais de população, a 112.323 australianos mortos e 298.350 feridos – mais do que toda a população do Território da Capital Australiana – [ou a 54 mil paulistanos mortos, tomando em conta a população de 12 milhões da capital paulista].

Estima-se que 1,4 milhão de pessoas em Gaza estejam deslocadas internamente e, de acordo com o Ministério de Obras Públicas e Habitação de Gaza, mais de 50% de todas as casas e unidades habitacionais foram destruídas. Os hospitais relataram o uso por Israel de armas proibidas internacionalmente, como o fósforo branco.

Os palestinos têm sido vítimas de atos de terrorismo do Estado israelense e de uma lenta guerra de genocídio há 75 anos. Em 1948, eles foram massacrados, estuprados e submetidos a uma limpeza étnica, conforme documentado por historiadores palestinos, israelenses e internacionais. Suas propriedades e pertences foram confiscados, e lhes foi negado o direito inalienável de retornar ao seu país. Todos esses crimes contra a humanidade foram cometidos e continuam a ser cometidos contra eles por serem palestinos, que não têm o direito de retornar ao que agora é definido como a terra e o Estado exclusivamente judaicos, com a total cumplicidade dos governos ocidentais, especialmente do grupo de países anglo-saxões que formam a chamada coalizão “Cinco Olhos” [Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA].

É hora desses países serem responsabilizados, assumirem suas obrigações de acordo com a Convenção de Genebra e forçarem Israel a reconhecer os direitos humanos e nacionais do povo palestino e o direito da Palestina de existir. Sem o apoio cego e a proteção desses governos, Israel não ousaria cometer esses crimes contra a humanidade e desafiar a comunidade internacional como está fazendo. E sem que os palestinos conquistem seus direitos legítimos, nunca haverá paz no Oriente Médio.

(*) Ali Kazak é um ex-embaixador palestino e sobrevivente da Nakba.

(*) Tradução de Pedro Marin