Hoje na História: 1968 - Medalhistas olímpicos são punidos por protesto contra discriminação racial

Em cerimônia no pódio dos 200 metros livres, dois atletas negros dos EUA ergueram o braço na saudação "black power" e perderam suas medalhas

Max Altman

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Atualizada em 16/10/2017 às 14:50

Smith e Carlos fazendo saudação "black power" - Wikicommons

Em 17 de outubro de 1968, os medalhistas de ouro olímpico, Tommie Smith, e o de bronze, John Carlos, foram obrigados a devolver seus prêmios porque levantaram seus punhos numa saudação “Black Power” durante a cerimônia de entrega das medalhas. Numa coletiva de imprensa no dia seguinte, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Avery Brundage, deplorou a atitude dos atletas, uma “postura ultrajante” que viola “os princípios básicos dos Jogos Olímpicos”, afirmou. A fotografia da agência de notícias Associated Press da cerimônia é uma das mais familiares e duradouras imagens de uma era tumultuada.

Em 16 de outubro, Smith e Carlos terminaram em primeiro e terceiro lugar nos 200 metros nos Jogos Olímpicos do México. Smith estabeleceu um novo recorde mundial: 19’’83 segundos.

Anteriormente, ambos os atletas participavam de um grupo chamado de Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos, que tentava estimular os atletas afro-americanos a boicotar os jogos. “Mesmo que você ganhe uma medalha”, dizia Carlos, “isto não vai ajudar sua mamãe, nem vai ajudar sua irmã ou suas crianças. Lhe dará 15 minutos de fama, mas e o resto de sua vida?”

Durante a cerimônia de entrega das medalhas, Smith e Carlos subiram ao pódio trazendo uma insígnia do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos sobre seus agasalhos desportivos. Descalços, os atletas simbolizavam a pobreza que aflige os negros norte-americanos.

Carlos, que usava um colar de contas pretas, dedicou a vitória “para aquelas pessoas que foram linchadas ou assassinadas e para quem não se rezou sequer uma oração, para aqueles que foram enforcados cruelmente. E para aqueles que foram arremessados para fora dos barcos no meio do caminho”. Já Smith usava um cachecol preto e ao lado do companheiro inclinou a cabeça, ergueu o braço com a mão coberta de luva e permaneceu em silêncio enquanto o hino era executado.

No mesmo instante pessoas em meio à multidão vaiavam e maldiziam os atletas obrigando o COI  a reunir-se no dia seguinte, determinando que Smith e Carlos perdessem o direito as suas medalhas e abandonassem a Vila Olímpica e o México imediatamente. Brundage chegou até a ameaçar de expulsão toda a equipe norte-americana como medida punitiva. "O exibicionismo atípico desses atletas viola os padrões fundamentais de boas maneiras e esportividade, que são tão altamente valorizados nos Estados Unidos," disse em nota o Comitê Olímpico dos Estados Unidos. "Tal comportamento imaturo trata-se de um incidente isolado” e “um desrespeito intencional aos princípios olímpicos”.

Mesmo após os atletas terem sido punidos, prosseguia uma reação violenta. Jornais comparavam-nos a nazistas. Brett Musburger, comentarista esportivo da ABC, chamou-os de “polícia de assalto de pela negra." A revista Time considerou seu ato como “asqueroso e desagradável”. Suas atividades “não-americanas” levaram Smith a ser desincorporado do exército e alguém arremessou uma pedra partindo o vidro do quarto onde estava o berço de seu bebê. Durante anos os dois receberam ameaças de morte.

Em alguns setores, pelo menos, a opinião pública começou recentemente a mudar e muita gente celebra agora o ato de coragem e de princípios dos velocistas. Em 2005, a Universidade Estatal de San José inaugurou uma estátua de 6 metros de altura em homenagem aos dois homens.

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